Terça-feira, 30 de Setembro de 2008

O primeiro passo está dado

Os equatorianos aprovaram, este domingo, uma nova Constituição de cariz socialista, impulsionada pelo presidente Rafael Correa. A previsão à boca das urnas aponta para uma projecção entre 67 a 70% dos votos para o SIM.

Contrariando quer uma igreja passadista quer uma extrema-direita muito bem instalada, o povo do Equador deu o primeiro passo para romper com o passado e rumar a um futuro mais justo e mais solidário.

É a vitória dos povos, é mais uma vitória da nova América-Latina, que pretende virar a página de anos e anos de ditadura, de pobreza, de massacres.

É também um sinal claro aos vizinhos da Bolívia, onde os fascistas da meia-lua tudo fazem para evitar idêntico referendo.

É, sem margens para dúvidas, uma autêntica lufada de ar fresco que invade aquela região e é também a reafirmação perante o ocidente de quererem tomar nas mãos o seu futuro e refundar o Equador desde as próprias raizes. É um continente que renasce das cinzas neo-liberais.

"A nova Constituição triunfou esmagadoramente. É um momento histórico que transcende as pessoas que têm estado mais visíveis neste processo que é de todo um povo", disse Correa ao assegurar que estará aonde "o povo" o queira.

Aqueles que "mentiram e só se preocuparam em enganar durante a campanha terão que prestar contas".

"O Equador decidiu um novo país, as velhas estruturas foram derrotadas; esta é a confirmação da revolução cidadã que oferecemos ao povo no ano 2006", disse Correa ao referir-se ao ano em que ganhou as eleições.

O 'sim' triunfou em 23 das 24 províncias do país. Foi uma jornada eleitoral tranquila e classificada de "democrática" pelos observadores internacionais e com uma abstenção de apenas 10%.

As "democracias" ocidentais têm alguma dificuldade em lidar com estas novas realidades até porque por aqui acontece o contrário. Neste mesmo dia a extrema direita na Austria aumenta e muito a sua votação. Itália é o que se vê e em Portugal o PS guinou, há muito, à direita.

Porém embora tenha a melhor das intenções, Correa sabe que, para um país que cresce ao ritmo de entre 3 e 4% ao ano e com uma elevada dívida pública, as receitas dos impostos ordinários e do petróleo não são suficientes.

Árduo trabalho pela frente, sem contar com a habitual "hostili-dade" da extrema direita e dos Estados-Unidos.

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Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

Acalme-se se não ainda vai preso

Muitos passageiros não o sabem, mas num aeroporto não identificado do Estado de Maryland, nos Estados-Unidos, o Departamento de Segurança Interior está a observá-los através de um detector de ansiedade, na busca de terroristas.

Trata-se de uma experiência com a chamada tecnologia de exploração de atribuição futura, um sistema que funciona como um polígrafo, detecta flutuações na temperatura corporal, o pulso e a frequência de respiração para revelar os níveis de ansiedade do indivíduo e prever se está a ponto de cometer um acto criminoso, como, por exemplo, um atentado terrorista.

Este tipo de vigilância física e emocional poderá vir a instalar-se em aeroportos, edifícios públicos ou zonas de alta segurança.

O governo dos Estados-Unidos experimentou o sistema durante dois anos e mantê-lo-á em testes durante outros três.

Funciona através de um sistema de câmaras instaladas nos postos de segurança do aeroporto. Uma delas, termostática, mede a temperatura da pele. Uma segunda, de  movimento, mede as pequenas expressões faciais que podem revelar variações na frequência respiratória.

Os peritos têm posto em dúvida a correlação traçada entre sofrer ansiedade e estar a ponto de cometer um atentado terrorista. Há muitas fontes de nervosismo num aeroporto, como temer chegar tarde à porta de embarque. Há muitos factores que determinam a frequência cardíaca, para lá  da intenção de empreender uma conduta agressiva, como o explica o psicólogo da Universidade Estatal do Michigan Timothy Levine.

Os cientistas que desenvolveram o programa estão a conduzir um teste com 140 cidadãos de Washington que se submetem a provas voluntárias para se detectar os seus níveis de ansiedade com as variáveis da elevação da temperatura corporal e a frequência cardíaca.

Estas pessoas foram treinadas para mentir e tratar de enganar os vigilantes que participam no simulacro. Com os resultados está-se a criar uma base de dados de reacções irreflexivas que se utiliza, por enquanto, para caçar terroristas.

Já sabe, tem que se habituar a controlar-se. Se andar ansioso é melhor não viajar ou frequentar edifícios governamentais.

Já estou a imaginar a cena, dirigir-me a qualquer repartição pública para reclamar e acabar "engavetado".

À cautela é melhor andar com um xanax no bolso...

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Sábado, 27 de Setembro de 2008

Histórias reais - Marjorie Nshemere Ojule

Trago-vos hoje, em discurso directo, o testemunho de mais uma mulher, Marjorie Nshemere Ojule de 32 anos, refugiada ugandesa em Inglaterra.

No Uganda eu era uma militante de base na oposição política: trabalhava na minha cidade, ajudando as mulheres a conhecerem os seus direitos e ensinando-as a ler e a escrever. Fui detida duas vezes. O horror que então experimentei, não o desejo a ninguém, nem mesmo ao pior inimigo.

Fui torturada, fui violada, queimada com pontas de cigarro, golpeada com lâminas, choques eléctricos, todas as coisas que possam imaginar para se obter informação de alguém. Consegui fugir e vim para Inglaterra. Era assustador, mas passava por estas torturas já há algum tempo e só queria ser capaz de respirar ar puro outra vez.
Deixei o meu marido quando escapei e essa foi a útima vez que o vi. Não tenho uma pista de onde possa estar. Se ele estiver por aí algures, se vir a minha foto, eu gostaria que ele me contactasse. Posso estar a sonhar e ele já estar morto, mas a vida está cheia de surpresas.

A filha que tenho agora é o resultado de uma violação e no princípio eu não queria ficar com ela, eu queria dá-la para adopção. Quando cheguei em 2002, levaram-me para um hospital, estava mal-nutrida, desidratada, e no Home Office (o departamento governamental responsável pela imigração, contra-terrorismo, polícia anti-droga, e assuntos relacionados com a ciência e a pesquisa) disseram-me que tinha que ir para casa quando a criança estivesse para nascer. Ao fim de seis meses quizeram controlar se a minha minha filha era saudável e foi só após isso que eles disseram "Oh a propósito nós temos família para ela. Eu disse que não estava pronta a dar a minha filha a alguém que primeiro quer ver se ela está desenvolvida em padrões normais.

Por essa altura eu estava a aconselhar-me e isso tornava-me uma pessoa mais forte: as minhas feridas tinham sarado. Eu olhava para mim e sentia-e uma pessoa mais realizada. Esta criança era parte de mim. É difícil trazê-la à vida, mas se eu não a tivesse eu iria ficar louca esperando pela decisação do "Home Office".

Quando o meu caso foi ouvido em tribunal, o juiz concordou que eu fui torturada e deu-me autorização para permanecer no país. Mas o Home Office interpôs recurso. Vivi num limbo à espera da decisão. Finalmente deram-me licença permanente para ficar.

Eu já estava cansada de estar sentada em casa por isso comecei a procurar as instituições de beneficiência e foi através das "Mulheres para as Mulheres Refugiadas" que encontrei Natasha walter que dirige a instituição.

Desde então tenho contado a minha história e as histórias de outras mulheres que não falam o inglês. É como terapia, quando há um lugar onde podes explodir toda a raiva e dizer "porque é que o governo do Uganda me fez isto?" e depois sabe bem, como se eu pudesse respirar livremente. Toda a gente me pergunta "Oh meus Deus Marjorie, como conseguiste passar por tudo isso?" E eu digo que é com o trabalho que me mantém ocupada. E já estive na "Casa dos Comuns" muitas vezes. A primeira vez foi aterrador, mas mative-me de pé e falei, olhei em volta e toda a gente estava a acenar com a cabeça e pensei: oh meu Deus, eu tenho poder.

Natasha diz que eu sou maravilhosa e eu digo sou que sou maravilhosa por causa dela. Isto faz-me gritar que se não fosse gente como ela eu não estaria aqui. Estou-lhes tão agradecida.

Estou a guardar dinheiro para a minha filha mais velha, de dez anos, vir para o pé de mim porque a minha mãe, a sua protectora, já se foi. Estou com esperança de a encontrar e isso faz-me continuar.

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Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

Fernando Lugo, outro "insuportável"

Não é só na Bolívia, na Venezuela ou no Equador, também no Paraguai. A recente denúncia feita pelo presidente paraguaio Fernando Lugo, sobre uma comprovada reunião conspiratória, põe em debate uma novidade dos tempos actuais. Os donos do poder estão incomodados, já não suportam mais tantos governos independentes no hemisfério.

Para conspirar contra o presidente Hugo Chávez demoraram três anos – o seu mandato havia começado em 2 de março de 1999. Logo tentaram contra Evo Morales, cujo governo se iniciou em 26 de Janeiro de 2006 – lá o intervalo foi de dez meses. O equatoriano Rafael Correa, que começou seu mandato em 15 de Março de 2007, teve que esperar nove meses para se inteirar da primeira tentativa de conspiração.

Três anos, dez meses, nove meses. Ao sacerdote terceiro-mundista Fernando Lugo, presidente eleito pelo povo do Paraguai, deram apenas três semanas.

O que acontece no Paraguai revela o seu grau de fragilidade como Estado-Nação capitalista, o protótipo do protagonismo mafioso plantado nas estruturas políticas, militares e sociais do país. A dimensão da impunidade é o estímulo para desafiar o novo governo desde o primeiro dia. Estão a aproveitar a ausência de um poderoso movimento social e político que defenda Lugo. De todas as maneiras isso não pode evitar a mudança que acaba de iniciar Fernando Lugo. Então a tarefa é desestabilizá-lo.

Na Venezuela, tiveram que esperar até que Chávez falasse das "leis de aprofundamento da revolução", em Setembro de 2001, pois estas falavam no direito social da terra, na recuperação do petróleo, da PSDVA e  outras coisas muito feias para a elite. Nos três anos prévios, a tarefa foi tentar comprá-lo, corrompê-lo e agradá-lo. Reveladora a declaração de Pedro Carmona numa entrevista em Junho de 1999. "Este homem que faça o que bem quiser com sua Constituição Bolivariana e seus discursos incendiários, desde que não queira tocar no petróleo e tumultuar este país". Esse sentido de poder de classe conduziu o golpe de 11 de abril de 2002.

Com Evo, a situação que levou à primeira conspiração de Novembro de 2006 começou seis meses antes, no mesmíssimo dia 1º de maio em que os hidrocarbonetos foram nacionalizados. Não somente foi a resposta das multinacionais afectadas, começando pela Petrobras, mas também o susto dos chefes de Santa Cruz e os outros estados com reservas de gás: entenderam que estavam a ponto de perder o seu controlo sobre esses recursos. Cinco meses depois, já andavam a reunir-se com agentes da embaixada dos Estados Unidos, buscando aliados nas Forças Armadas, na igreja, junto à USAID, à CIA e outros órgãos e culminaram há poucos dias com uma tentativa de golpe de estado.

Quanto a Correa, os ataques começaram no Parlamento opositor que quase lhe fez perder quatro ministros no primeiro ano. O movimento cresceu com a resolução presidencial de acabar com a base norte-americana de Manta em 2009 e por sua vontade de pertencer ao "socialismo do século 21".

Há muita gente que não quer perder os privilégios adquiridos durante os governos da ditadura, e que vão procurar a qualquer custo impedir que Lugo realize as mudanças de forma pacífica e transparente.

A incrível lembrança de mais de 300 golpes sofridos pela América Latina no século 20 deve fazer-nos pensar no que verdadeira-mente ali está a acontecer nos últimos tempos e o que ali faz a 4ª esquadra dos Estados-Unidos.

 

Fonte: Página 12

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Quinta-feira, 25 de Setembro de 2008

E se todos os governos agissem desta maneira?

O presidente do Equador, Rafael Correa, ordenou o embargo dos bens da empresa brasileira Odebrecht e proibiu que os empresários deixassem o país.

Correa ordenou a militarização imediata das obras que estão sob responsabilidade da Odebrecht, entre elas uma outra hidroeléctrica, uma auto-estrada e um aeroporto.

O governo equatoriano exige o pagamento de uma indemnização por parte da empresa devido a falhas no funcionamento e da posterior paralisação da central hidroeléctrica San Francisco, construída pela empreiteira.

De acordo com o governo, a hidroeléctrica apresentou falhas e deixou de funcionar alguns meses depois de serem concluídas as obras. É a segunda maior do país e sua paralisação coloca em risco o abastecimento de energia no Equador.

O Estado equatoriano exige da firma brasileira o pagamento pelas perdas geradas pela paralisação da central eléctrica, assim como a reparação dos danos o mais rápido possível.

"Estou cheio da Odebrecht; quanto mais cavo mais lama encontro", ressaltou. "Estes senhores foram corruptos e corruptores; compraram funcionários do Estado. O que está a ser feito é um assalto ao país".

Segundo Correa, a Odebrecht, que tem um longo histórico de construções no país, é investigada no Equador por suposta corrupção, pois assegurou que 

Assim, está a renegociar também os contratos com as empresas estrangeiras que extraem petróleo e exploram as minas equatorianas. Há alguns dias, persuadiu a companhia estatal brasileira Petrobras a abandonar uma exploração petrolífera na selva do Amazonas pelo impacto ecológico do projecto.

É deste país da américa-latina que vem o exemplo de como lidar com este tipo de empresas e empresários.

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Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008

Com a mãe ou com a filha?

Um juiz da província argentina de Mendoza recusou a petição de uma mulher para que se praticasse um aborto na sua filha de 12 anos, que ficou grávida depois de ter sido violada pelo padrastro.

O juiz Germán Ferrer considerou que o "feto é uma pessoa desenvolvimento" e que o aborto poderia ocasionar "graves transtornos psiquiátricos" à criança.

Numa conferência de imprensa, o magistrado destacou que o caso não se enquadra no Código Penal argentino, que castiga o aborto salvo nos casos em que a vida ou a saúde da mãe corra perigo ou quando a gravidez seja o resultado da violação a uma mulher mentalmente incapacitada.

O juiz sustentou que "o desejo da criança, era de que o feto não sofresse nenhum dano e que, portanto, desejava prosseguir a gravidez".

Como agiria você?

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Terça-feira, 23 de Setembro de 2008

Os sapatos de Sammy Gitau

Sammy Gitau é uma coisa pouco frequente: um filantropo, um filósofo e um maestro que se fixa em cada mínimo detalhe da sua vida diária. O trabalho de Sammy, no duríssimo bairro de Mathare, em Nairobi, onde nasceu, baseia-se em dois infalíveis princípios: a generosidade e a amabilidade.

"Creio que o mundo está demasiado obcecado com os direitos humanos e esqueceu-se da dignidade humana. Oferecer sapatos é paternalista. Prefiro caminhar descalço do que ser humilhado dessa forma".

Isto ouviu-o um inglês chamado Alex Walford, que trabalha para a União Europeia e contribuiu de maneira fundamental para proporcionar a Sammy os quatro contentores que formam o Centro de Recursos Comunitários de Mathare, um dos quais Sammy utiliza como alojamento para si e para a família. Um dia, em 2005, Walford lembrou-se de lhe perguntar: "Sammy, que queres tu? Que gostarias de fazer por ti?". Sammy confessou o sonho que transportava no seu interior desde há oito anos, desde que tinha descoberto um folheto da Universidade de Manchester num caixote do lixo. Disse que o que mais queria era ir para a universidade fazer um curso de pós-graduação sobre o que tinha lido, desenvolvimento internacional.

Walford, claramente contagiado, em parte, pela fé louca de Sammy, contactou o catedrático que dirigia o curso em Manchester, um americano chamado Pete Mann. "Alguma vez pensou em aceitar uma inscrição de alguém que não tem nenhum título? Perguntou-lhe. "Já aconteceu", respondeu Mann. "E alguém que não fez o ensino secundário?". Mann deteve-se um instante e respondeu: "Conte-me mais".

Com a bênção entusiasta de Mann, obteve uma bolsa que não só cobria a matrícula como também os gastos de alojamento. "Todos os que tinham duvidado de mim em Mathare tiveram que engolir as suas palavras", recorda Sammy sorridente. "De repente, todo o mundo estava orgulhoso de mim".

No entanto, poucas semanas antes da data em que devia voar para Inglaterra, um burocrata meticuloso no consulado britânico de Nairobi bloqueou-lhe o seu pedido de visto. "Suponho que é compreensível, dado que, com as credenciais que tinha, àquele tipo devia  parecer-lhe mais provável que a minha verdadeira intenção era ir para Inglaterra trabalhar ilegalmente, mas deixou-me destroçado. E o pior foi que tinha falado com as pessoas Mathare. O meu sonho tinha-se convertido no sonho deles, e tinha-os decepcionado".

Walford aconselhou Sammy a não se dar por vencido sem lutar. Apelaram para um tribunal em Inglaterra que revogou a decisão do funcionário consular. Mas então surgiu outro obstáculo. A bolsa escolar continuaria válida, mas já não era possível cobrir os custos de alojamento de Sammy em Manchester. Walford tornou a empenhar-se e conseguiu que amigos e conhecidos seus se comprometessem a dar dinheiro e inclusive disse aos convidados da sua festa de aniversário que, em lugar de lhe darem um presente, fizessem dádivas para a causa de Sammy.

Trabalhou com uma dedicação quase fanática, desprezando os excessos borguistas de alguns dos seus companheiros e impulsionado pelo facto de saber que estava a lutar não só por ele mas também por um povo. Ao fim de 18 meses, não só obteve o título, com toda a cerimónia da toga e barrete, como um distinção pela sua tese de 16.000 palavras.

Isto foi em Dezembro do ano passado. Agora está de novo em Mathare, a lutar para melhorar as perspectivas dos jovens. Os seus patrocinadores, Pete Mann y Alex Walford, crêem que o aguardam grandes coisas. Mas, por agora, só quer levar à prática a sua tese de pós-graduação, que é penetrar nas mentes ds seus vizinhos, idealizar formas de aproveitar o seu talento, acabar com a enorme vergonha, como ele a define, do desperdício de potencial humano que determina grande parte de África.

Não acredita que as ONG estrangeiras - as ONG clássicas, diz ele, que levam caridade e projectos pré-concebidos ao continente, e para as quais trabalhou no passado - sejam a solução. "O nosso centro de recursos de Mathare é uma  organização que nasce desde baixo; o inconveniente da maioria das ONG - e em Mathare funcionam 300 - é que querem controlar tudo desde cima. Quanto mais dinheiro gastam em ti, mais querem controlar-te. E o mal disso é que as pessoas, acima de tudo, querem que as tratem com respeito; querem ser donos do seu desenvolvimento, que não sejam os outros, por muito boas intenções que tenham. Por desgraça descobri que, às vezes, algumas pessoas que crêem que estão a fazer o bem, na realidade estão a fazer o mal".

Sammy explica o que quer dizer com a parábola dos sapatos. "Uma ONG vem e oferece sapatos às crianças. Fazem fotografias com os sapatos novos. Muito bem. Mas os sapatos gastam-se, ou tornam-se pequenos. O problema é que a única coisa que abordam é o sintoma e, três anos depois, a ONG vai à comunidade e sente-se enganada porque, em segredo, as pessoas esperavam que a ONG as deixassem propor as suas próprias ideias e lhes dessem ajuda económica para resolver os seus problemas. Necessitamos ajuda económica, certo, mas dirigida para as necessidades que nós próprios temos que especificar. Se a ONG faz tudo, as pessoas tornam-se passivas e isso não serve de nada".

"Creio que o mundo está demasiado obcecado com os direitos humanos e esqueceu-se da dignidade humana. Oferecer sapatos é paternalista. Prefiro caminhar descalço que ser humilhado dessa forma. Talvez demore um pouco em poder comprar os meus próprios sapatos, mas, quando o fizer, escolherei os que quero, e cuidarei deles porque os valorizarei como fruto dos meus esforços".

 

Fonte: El País

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Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008

Socialismo para os ricos e capitalismo para os pobres

 

Nas últimas 72 horas, o estado norte-americano teve que injectar 300 mil milhões nos mercados financeiros e prepara-se para injectar mais 700 mil milhões.

O que alguns diriam ser impensável, está a acontecer, uma intervenção governamental com fundos públicos sem precedente para resgatar o sector financeiro privado do colapso.

Enquanto Wall Street celebra, o homem da rua chora. Isto é o socialismo para os ricos, o capitalismo para os pobres.

Milhões de contribuintes que hoje enfrentam acções hipotecárias e custos mais altos de crédito, combustível, alimentos e outros, não receberam com agrado que milhares de milhões do seus impostos sejam dedicados a resgatar os ricos.

Para aqueles que estão a perder as suas casas por não poderem pagar as hipotecas, para os que estão desempregados e para outros afectados pela crise actual, o governo não tem a mesma consideração e planos semelhantes .

É o capitalismo, estúpido!

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Sábado, 20 de Setembro de 2008

Porque é que o protagonismo feminino é esquecido pela História?

Recentemente tenho lido vários posts erguendo a sua voz contra a discriminação feminina e destacando o papel da mulher na sociedade actual. Dou-me conta de que também na  história o seu papel foi esquecido.

Atenho-me a uma região a que dedico especial atenção e, socorrendo-me de Maria Victoria Romero, Agência Jornalística do Mercosul (APM), verifico sem esforço o quanto isso é verdade.

A chegada ao poder de mulheres na América Latina, somada a uma maior participação nos espaços do debate político, significou um avanço na presença e ingerência de género no continente. Não obstante, ainda se percebem diferenças nesse âmbito, que tiram as mulheres de seu lugar, cuja raiz está numa herança histórica que minimizou o seu papel até silenciá-las.

A história da civilização está escrita sob essa óptica. Deus criou primeiro o homem e da sua costela saiu a mulher; o pecado original saiu de uma mulher e não de um homem; e  até o paraíso foi perdido pela humanidade por causa de uma mulher. Até Deus é homem! Paradoxos da humanidade, já que a história tem sido contada pelo género que a manteve, e mantém, a hegemonia dos relatos.

A história universal conta um relato desde a óptica dos vencedores e deixa de lado a visão dos oprimidos, na sua maioria negros e indígenas – e, sobretudo, mulheres. Silêncios e ausências que se repetem e constituem um relato masculino. Poucos se lembram ou sabem da participação e o protagonismo de mulheres na construção da história latino-americana.

Bartolina Sisa nasceu em tempos da mais recalcitrante opressão e despojo colonialista espanhol contra os indígenas. O comércio de folhas de coca e tecidos permitiu-lhe viajar por várias povoados do planalto andino e ver de perto a condição de servidão, os vexames e a escravidão a que era submetida sua população originária.

Morreu enforcada, torturada, flagelada, violada, arrastada a patadas num imenso charco de sangue, por conduzir em 1781, junto com o seu marido Túpac Katari, uma das rebeliões indígenas que marcaram o passado da América Latina.

Outra mulher que conduziu as lutas de independência foi Juana Azurduy, líder revolucionária que combateu na Guerra de Independência do Alto Peru. As crónicas da época contam que quando Manuel Belgrano a viu lutar, entregou-lhe a sua espada em reconhecimento à sua causa e à sua bravura. Foi ela quem ocupou em plena guerrilha o cerro de La Plata e tomou para si a bandeira inimiga. Com essa acção, o director supremo das  Províncias Unidas do Rio da Prata, Juan Martín de Pueyrredón, concedeu-lhe, em 1816, o grau de tenente-coronel do exército argentino em virtude de seu esforço.

Morreu aos 82 anos, esquecida e na miséria. Enterrada numa vala comum, sem honras ou glórias.

No livro "Juana Azurduy e as mulheres na revolução do Alto do Peru", a historiadora Berta Wexler demonstra que as mulheres conduziram e participaram de acções de guerra, discutiram estratégias e assumiram consequências como a tortura e a morte.

"A historiografia, como muitas disciplinas, esteve construída sob categorias em que o homem é o centro e o eixo sobre o qual giram, avançam e se explicam os sucessos históricos. É o homem quem protagoniza e dá importância ao desenvolvimento da humanidade", diz Martha Nova Laguna, directora do Centro Juana Azurduy, na Bolívia, no prólogo do livro de Wexler.

"Os historiadores conseguiram fazer com que o imaginário social associe os feitos históricos importantes ao 'homem', não somente em um sentido biológico, mas também dentro de um conceito cultural e de género". É habitual ler-se em documentos que contêm informações sobre as lutas emancipadoras da América do Sul que as mulheres lutavam com 'virtudes sensíveis', enquanto que os cavalheiros eram os que tinham 'profissionalismo militar'", diz a historiadora.

Assim mesmo, Wexler explica que as mulheres tiveram papel crucial em cada um dos processos sociopolíticos da história. "A mesma sociedade machista não as deixava ocupar lugares. Por isso aparecem tão poucas. A história do Peru está cimentada sobre heróis e heroínas anónimas. Algumas são reconhecidas pela história, como Azurduy.

Estamos nos esforçando para descobrir outras mais", disse.

A história da humanidade parece não estar somente escrita por homens, mas também vivida por eles. Os que a escreveram encarregaram-se, de fazer com que não aparecesse a luta dos oprimidos e menos ainda a das mulheres.

Os relatos dessa parte do continente tiveram mulheres como protagonistas, exemplo de luta e de decisão na recuperação de direitos ancestrais de povos originários e na construção da riqueza política latino-americana. São os relatos que não se ensinam na escola, diferentes daqueles que ilustravam mulheres bordando bandeiras, cozinhando ou tendo filhos enquanto eram apenas os homens que lutavam pelos povos.

Em cada época e de maneira recorrente e inexorável, as mulheres foram excluídas das decisões sociais e políticas. Apesar de terem conquistado avanços, ainda há muitas histórias a serem descobertas e terrenos a serem ocupados.

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Sexta-feira, 19 de Setembro de 2008

Solidariedade com Cuba

 

Como se já não bastasse o bloqueio que lhe é imposto, Cuba foi devastada por dois furacões, que deixaram 200.000 pessoas sem abrigo.

Tão pressurosos com outras partes do mundo os Estados Unidos negam-se a levantar por seis meses o bloqueio, e em nome dele condena todo um povo, que até a mãe-natureza fustiga. 

Alguns países como a Espanha, Rússia, Venezuela, Equador, Colômbia, a ONU e até Timor estão já a enviar ajuda humanitária, que se mostra no entanto insuficiente.

Também o Porto se mobiliza para a ajuda ao povo de Cuba. 

A PORTOCOMCUBA, organização promotora da campanha de ajuda humanitária ao povo de Cuba lançada em Portugal na sequência da dramática devastação provocada pela passagem de dois furacões e uma tempestade tropical, apelou hoje em conferência de imprensa, à mobilização de todos os portugueses em torno do objectivo de, até dia 24 de Setembro, se reunir o maior número de embalagens de Leite em pó, massa, arroz e conservas para a ajuda imediata ao povo cubano.

A PORTOCOMCUBA reafirmou que sempre esteve e sempre estará solidária com o povo cubano nos momentos mais ou menos difíceis da sua história, e que assumirá a ajuda fraterna nesta circunstância de maior necessidade. Apelou ainda à compreensão geral da população em relação a estas necessidades imediatas do povo cubano.

 

Faz chegar a tua ajuda a:

 

PORTOCOMCUBA
Rua Barão Forrester, 790
4050-272 Porto
Telefones: 962 539 884 / 966 316 201 / 938 460 221

 

Casa Sindical de Vila do Conde
Rua do Lidador, 46 - R/C - 4480-791 VILA DO CONDE - Telef. 252631478

 

Sindicato do Comércio, Escritórios – CESP (Delegação Porto)
Rua Fernandes Tomás, 626 - 4000-211 PORTO - Telef. 222073050

 

Delegação do CESP na Póvoa de Varzim
Rua da Junqueira, 2 - 4490-519 PÓVOA DE VARZIM – Telef. 252621687

 

CASA SINDICAL (TVC)
Av. da Boavista, 583 - 4100-127 PORTO - Telef. 226002377

 

Sindicato dos Professores do Norte
Rua D. Manuel II, 51-3.º - 4050-345 PORTO - Telef. 226070500

 

Sindicato da Construção e Madeiras
Rua de Santos Pousada, 611 - 4000-487 PORTO - Telef. 225390044

 

Casa Sindical de Santo Tirso
Rua Tomás Pelayo, - 4780-557 SANTO TIRSO - Telef. 252855470

 

União Local de Felgueiras
R. dos Bombeiros Voluntários, R/C - Esq.-T. - FELGUEIRAS - Telef. 252631478

 

Casa Sindical USP
Rua Padre António Vieira, 195 - 4300-031 PORTO – Telef. 225198600

 

Em Lisboa poderás contactar:

 

Casa da Paz - (Secretariado permanente da Campanha)
Rua Rodrigo da Fonseca, 56 – 2º – Lisboa (perto do Marquês de Pombal)
Contactos
Telefones: 213 863 375 / 213 863 575
Fax: 213 863 221
Telemóveis: 962 022 207, 962 022 208, 966 342 254, 914 501 963

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