Sábado, 31 de Outubro de 2009

Quando eles não acreditam...

 

 

Não deixa de ser sintoma de alguma coisa, que não tardará a chegar, o facto de nem os próprios diplomatas no terreno acreditarem na guerra do Afeganistão. Desta vez é Matthew Hoh uma das esperanças da administração de Obama no Afeganistão e principal diplomata na província de Zabul, que acaba de apresentar a sua demissão por estar em desacordo com a estratégia do comando militar naquele país.

"Não sou um hippie que queira amor para todo o mundo, simplesmente perdi a confiança não tanto no por que estamos ali, mas na finalidade desta guerra". Assim se exprimiu ao pedir a sua demissão, argumento que já foi considerado como um dos mais demolidores para as esperanças dos Estados Unidos.

Com apenas 36 anos Matthew Hoh serviu como capitão dos Marines e como civil no Afeganistão, trabalhou no Pentágono e na Secretaria de Estado e desde Julho encontrava-se em Zabul.

"Perdi a confiança e deixei de compreender os objectivos estratégicos da presença dos Estados Unidos no Afeganistão", disse-o sem tibiezas aos comandantes militares numa carta de dez páginas que pode ser lida aqui no The Washington Post.

A administração Obama reagiu de imediato perante a certeza de que perder Matthew Hoh pressupõe um duro golpe e a possibilidade de que possa converter-se num dos seus maiores críticos. Não foi por acaso que o embaixador em Kabul, Karl W. Eikenberry, o levou de imediato para a capital afegã e lhe ofereceu um cargo junto a ele que no entanto Hoh recusou.

É de tal maneira importante a posição de Matthew Hoh que o enviado especial dos Estados Unidos no Afeganistão, Richard Holbrooke, já disse que "tomamos esta carta muito a sério porque ele foi um brilhante oficial. Todos estamos de acordo que dada a gravidade da carta, o compromisso que demonstra nela, e o seu historial, devemos prestar-lhe muita atenção".

Para Matthew Hoh, os Estados Unidos não se deram conta que o conflito no Afeganistão se converteu numa guerra civil. Depois de explicar que não se tinha convertido de repente num pacifista que "deseja o amor a todo o mundo", Matthew Hoh interroga-se por que terá um montão de pessoas que morrer ali ao mesmo tempo que deixa claro que muitos afegãos estão a combater os Estados Unidos apenas pela sua presença no Afeganistão e nem sequer são talibãs ou da Al Qaeda, como se pretende fazer crer.

Creio que quando o Afeganistão já não tiver ponta por onde se lhe pegar em termos de violência então sairão de lá abandonando-os à sua sorte como já fizeram no Vietname.

 

Fonte: The Washington Post

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Terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Antes tarde do que nunca

 

 

Em 3 de Março deste ano dei-vos conta aqui que se estava a desenrolar no Uruguai o julgamento do ditador Gregorio Alvarez. Pois bem, embora tarde, foi condenado a 25 anos de prisão. Perante a condenação mostrou-se inconsolável porque, disse ele, "com a idade que tenho vou passar o resto da minha vida na prisão".

Não sei se os familiares daqueles que morreram às suas mãos ou por sua ordem e que acompanharam o julgamento terão ouvido estas palavras, mas na minha modesta opinião acho que deveriam reunir esses familiares numa sala a sós com ele, de modo a permitir que ele lhes apresente esse desconsolo...

O personagem encontrava-se preso desde 2007 por violação dos direitos humanos cometidos durante a ditadura naquele país. Sobre ele pendiam acusações pelo homicídio de 37 opositores e o desaparecimento forçado de presos políticos, que posteriormente teriam sido executados e ainda por ser co-autor de sequestros de uruguaios na Argentina e o seu transporte clandestino para o Uruguai onde eram abatidos.

Gregorio "Goyo" Alvarez teve ainda participação activa no golpe de Estado de 1973 e converteu-se no símbolo da ditadura que assolou o Uruguai até 1985.

Na madrugada de 27 de Junho de 1973 encabeçou o "piquete" das Forças Armadas que, sob presidência de Juan María Bordaberry invadiu a sede do Congresso e dissolveu o Parlamento, impondo uma ditadura que se prolongou por 12 anos.

Em 1981 provocou outro golpe de Estado, forçando o Conselho de Segurança Nacional a propor o seu nome para a presidência e a entregar-lhe o poder.

A ironia das ironias é que tendo o seu governo sido especialmente duro para com os Tupamaros seja precisamente um ex-tupamaro que ganhou este Domingo a primeira volta das eleições presidenciai e uma Frente Ampla de esquerda que ganhou as legislativas naquele país...

publicado por salvoconduto às 00:40
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Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Mais um

 

 

A quem é que não revolta acontecimentos como o último atentado bombista ocorrido em Bagdad e que provocou 136 mortes e 600 feridos? Por certo a ninguém excepto àqueles que praticam a violência em nome da violência.

Quem ateou o fogo?

Foram para o Iraque sob a mais que jurada garantia de que aquilo estava pejado de armas de destruição massiva. Invadiram, mataram e não as encontraram, semearam mais ódio, mais intolerância, mais violência. As "armas de destruição massiva" que não existiam estão agora ao virar de cada esquina.

Aprestam-se para dali sair, o caos está instalado. Matem-se uns aos outros, missão cumprida.

Amanhã começa o julgamento de Radovan Karadzic, porque não está George Bush sentado ao lado dele?

publicado por salvoconduto às 00:01
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Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Rasteirinho

 

 

Depois de um debate civilizado entre o padre Carreira das Neves  e José Saramago a propósito do último livro deste, na SIC-Notícias, e não vou aqui discutir da bondade dos argumentos de um e de outro, até porque poderia ser suspeito, dada a minha "ralação" com a igreja, eis que me entra a pocilga pela casa adentro.

Saldanha Sanches, insigne "fiscalista", trazendo ao de cima algum ódio recalcado, retira a laranja da boca e despeja assim de uma assentada: "Saramago foi viver para Lanzarote para fugir dos impostos!"

É claro que isto dito por "entendido" na matéria de impostos ganhava mais credibilidade e sempre cobrava algum caso mal resolvido no passado, talvez do tempo em que militava no MRPP.

Mas a vida às vezes tem destas coisas, Saldanha Sanches, tanta a sua pressa em caluniar, nem se deu conta que Saramago não tinha tido tempo sequer de tirar a maquilhagem e lá veio o desmentido da régie para Mário Crespo que, com o riso nos olhos, lá lhe foi dizendo que afinal não era bem assim que Lanzarote não tinha nenhum regime fiscal especial e que Saramago pagava os seus impostos cá na terrinha.

Quando Saldanha Sanches abriu a boca com o sorriso alarve de quem foi apanhado a roubar um frasco de rebuçados, juro, está cá a minha mulherzinha que não me deixa mentir, a primeira palavra que me saiu foi, PORCO! E também juro que se estivesse lá ao pé lhe metia a laranja outra vez na boca...

publicado por salvoconduto às 22:45
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Malalai Joya

 

 

 

Pelos vistos não sou só eu que afirmo que as eleições afegãs foram uma gigantesca fraude, e que vergonhas à parte, recebeu o apoio dos governos ocidentais para uma segunda volta. Julgam eles que esse acto lhe confere mais "credibilidade". Há até quem não tenha pejo em afirmar: "é verdade que houve fraudes consideráveis, mas apenas isso". Dito assim até faz gelar o sangue, mas quem o disse foi o representante especial da ONU no Afeganistão, Kai Eide.

Quem não está de acordo com esta hipocrisia é Malalai Joya, uma deputada afegã que no entanto não tem direito a ali sentar-se. Anteontem ao receber, em Madrid, o Prémio Juan María Bandres dedicado à Defesa do Direito de Asilo e à Solidariedade com os Refugiados afirmou não saber quantos dias lhe restam de vida, mas que até que a matem continuará a denunciar aqueles que governam o Afeganistão com as mãos manchadas de sangue.

Admirada por uns, odiada por outros, defensora dos direitos humanos, com 31 anos, converteu-se na pessoa mais jovem do Parlamento afegão. Mas como não podia deixar de ser o parlamento expulsou-a dois anos depois, por acusar alguns dos seus membros de narcotraficantes, corruptos e misóginos.

Sobre as eleições, sobre o que se passou na primeira volta, garante que irá repetir-se na segunda e vai mais longe, afirma que estas eleições nunca serão consideradas legítimas pela maioria dos afegãos nem com uma ronda eleitoral, nem com duas, nem sequer com dez, porque estão a celebrar-se debaixo da vigilância das armas, do império das drogas, da corrupção e do crime. Ganhe quem ganhar será o mesmo burro com uma nova sela. O que importa não é quem vota, mas sim quem elege e isto é o mesmo que dizer o Ocidente, a Casa Branca. Enquanto isso as gentes do Afeganistão continuarão a morrer encurraladas entre dois inimigos, as tropas de ocupação estrangeiras e um governo ilegítimo.

Malalai Joya alerta para o facto de o dinheiro e as armas estrangeiras irem parar aos senhores da guerra, tornando-os mais poderosos. Cada bombardeamento aéreo que mata civis está a beneficiar os talibãs. Por isso, quanto mais tempo durar a ocupação, pior será a guerra civil posterior. Os senhores da guerra que se uniram a Karzai e Abdullah foram precisamente os responsáveis pela anterior guerra civil afegã. Se se lhes dá o apoio, em vez de apoiar as verdadeiras forças democráticas, que agora se vêm forçadas a viver na clandestinidade pelas ameaças de morte que recebem, definitivamente haverá outra guerra civil.

Malalai Joya apresta-se para regressar ao Afeganistão recusando qualquer ideia de se refugiar pelas nossa bandas pois como diz, passou a infância e a adolescência em campos de refugiados no Irão e no Paquistão, mas voltou porque queria ajudar a construir um Afeganistão em paz, unir-se aos milhares de afegãos que já ali estavam, arriscando as vidas pela paz.

Essa é a pesada herança que o ocidente lhes deixa…

 

Para conhecerem um pouco a fibra de que é feita Malalai Joya deixo-vos aqui este vídeo.

 

 

publicado por salvoconduto às 01:02
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Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Com a mão na massa

 

 

Há nichos de mercado que já conheceram melhores dias, a crise parece tocar a todos e daí ao aguçar do engenho para a enfrentar vai um pulinho, o mesmo que leva Ratzinger a preocupar-se com o seu rebanho, cada vez com menor número de ovelhas.

Até assaltar o rebanho do vizinho foi outro pulinho, mais concretamente à Igreja Anglicana, provocando-lhe um duro golpe ao fazer mudar de rebanho inúmeros sacerdotes que só em Inglaterra já ascendem ao milhar.

Contado por miúdos, Benedicto XVI anunciou a promessa de aceitar no seu redil todos aqueles padres anglicanos casados que queiram fazer parte da Igreja Católica.

A crise parece ser de tal maneira grande que Ratzinger estará mesmo disposto a acolher também os cristãos ultraconservadores de Lefevre, entre os quais se agrupa um numeroso grupo que nega o holocausto.

A coisa caiu muito mal no Reino Unido onde lançam sérias acusações ao Vaticano a quem já acusam de ser um movimento predador contra os anglicanos.

Sosseguem-se no entanto as almas mais vulneráveis a estas coisas pois Ratzinger garante que a porta do redil está firmemente fechada a mulheres e homossexuais.

publicado por salvoconduto às 00:01
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Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

O direito à asneira

 

 

Estão longe de terminar as reacções às palavras de Saramago. Algumas correm mesmo o risco de ir engrossar as páginas do anedotário português. A última pérola vem do deputado europeu eleito pelo PSD, de sua graça Mário David, na foto ao lado de um dos seus mentores...

Palpita-me que o David deve ter sido companheiro de liceu de Sousa Lara, estudaram ambos pelas mesmas sebentas ou então frequentaram juntos algum daqueles "cursos da cristandade" tão em voga nos anos sessenta, que transformavam o pior dos sacanas em católico penitente.

O nosso deputado entende que Saramago depois de ter escrito e dito o que disse deveria renunciar à cidadania portuguesa, ao mesmo tempo que acrescenta que são as confissões religiosas que definem as pessoas de bom carácter.

Não se cala e afirma aos quatro ventos que tem direito à indignação. Claro que tem, porque o direito à asneira há muito que usufrui.

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Terça-feira, 20 de Outubro de 2009

A propósito de Saramago

Quando julgamos que determinados valores são mandados às urtigas eis que algures alguém se encarrega de nos demonstrar que não é bem assim.

É o que sucede aqui na nossa vizinha Espanha. Estamos perto do dia dos defuntos - 1 de Novembro - e há quem pretenda celebrar o ritual religioso desse dia sobre uma vala comum onde se encontram 140 republicanos executados entre Maio de 1939 e Março de 1942.

Mas um simples cidadão de nome Julian Esteban Rivera encarrega-se de repor tudo no seu lugar ao questionar se se trata de "provocação religiosa" ou de simples "erro de apreciação" o facto de o seu tio, fuzilado em 21 de Outubro de 1941 "por defender a Constituição espanhola de 1931" e por isso ser considerado como "rebelde traidor", ser alvo agora de uma eucaristia católica, a celebrar no próximo dia 1 de Novembro.

É inaudito que no lugar onde foram abandonadas vítimas tão significativamente desafectas da religião católicas como anarquistas, comunistas, socialistas, simples republicanos, agnósticos e ateus se celebre uma eucaristia católica.

Numa altura em que as hostes cá no burgo se mostram escandalizadas pelo livro e declarações de Saramago sobre a Bíblia não posso deixar de saudar Julian Esteban Rivera pelo facto de pedir à autarquia que desautorize a celebração daquele acto religioso ao mesmo tempo que considero uma humilhação para aquelas 140 vítimas do franquismo a celebração deste acto religioso sobre a sepultura na qual se encontram pessoas que, como o seu tio, renegaram em vida toda a crença religiosa ainda para mais quando essa mesma crença estava ao serviço daqueles que os assassinaram.

publicado por salvoconduto às 03:41
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Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Hoje estou de folga

Também tenho direito, uma vez por ano. Cuidem-se!

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Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Salve-se quem puder

 

 

A guerra tem destas coisas, ou dito de outra maneira, quem tem cú tem medo. Não é que fosse por não concordar com a guerra no Afeganistão mas simplesmente para safar o coiro que os serviços secretos italianos subornaram os talibãs para evitar ataques contra as forças do seu país, mas ocultaram estes pagamentos aos franceses que os foram substituir em 2008. Conclusão um mês apenas depois de lá terem chegado viram morrer 10 dos seus soldados.

Na realidade de Itália já pouco nos surpreende, seria mais honesto retirar de lá as tropas, até sabemos que em matéria de subornos o governo italiano é mestre, mas por certo esta nem ao diabo lembraria.

E até havia quem admirasse as tropas italianas porque a zona de Sarobi, por elas controlada, se tinha transformado numa das mais seguras. Estavam longe de conhecer a verdadeira razão...

Em 18 de Agosto daquele ano uma patrulha francesa sofreu uma emboscada que terminou com elevadas baixas e a magnitude da acção dos talibãs que utilizaram 170 homens deixou os franceses atónitos e à beira de um ataque de nervos.

A seguir a esse ataque houve outros e novamente pesadas baixas para um exército que julgava ir passar férias e mal informado dos métodos do governo italiano.

Com amigos assim...

publicado por salvoconduto às 00:03
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