Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012

Quem partiu a chave? (recebido por email)

 

 

Do que é que temos medo? Da perda, da morte, da pobreza, da insegurança, do desemprego, da doença... Cada um de nós dará uma resposta diferente em função da sua idiossincrasia e das suas próprias vivências.

 

Pela parte que me toca (todos temos os nossos fantasmas) há algo que me apavora muito mesmo, o equívoco e o logro. Não entenderam? Bom, vou-vos contar um pequeno episódio de infância que talvez ilustre esta minha fobia.

 

A acção passa-se na aldeia onde nasci chamada Carneiro (não se riam), no concelho de Amarante, numa escola primária (daquelas típicas do estado  novo) acabadinha de ser construída. Eu tinha 8 anos e estávamos no início da década de 70.

 

O acesso àquela escola era feito por um portão de ferro forjado, protegido por uma fechadura antiga de chave em forma de L com pega redonda.

Poucos dias antes da inauguração, a chave, que já estava na posse da professora primária da aldeia, foi necessária para abrir o portão a alguém que ia lá concluir uma tarefa ainda pendente.

 

Lembro-me que estava uma manhã de sol, mas muito fria quando me pediram que acompanhasse o filho da professora, um pouco mais novo do que eu, no caminho entre a velha e a nova escola.

 

É claro que fiquei entusiasmado pelo facto de poder sair da sala de aulas, de ir ver a nova escola e ao mesmo tempo pela responsabilidade de acompanhar e proteger o menino mais bem vestido da escola.

 

Depois de ouvirmos as recomendações da professora (que era muito severa), saímos disparados numa correria em direcção à nova escola. Chegados em frente ao portão o filho da professora entregou-me a chave para que fosse eu abrir o portão; afinal de contas eu era o mais velho. A tremer, mais de excitação do que de frio, coloquei a chave na fechadura e tentei rodá-la, uma, duas, três tentativas e nada. A chave não abria o portão. Aos gritos, frustrado e impaciente o filho da professora tira-me a chave da mão e introduz a chave na fechadura. Força uma, duas vezes e... trás! Ficou com metade da chave mão e a outra metade lá dentro. Petrificados, ficámos por instantes a olhar para a metade que ele tinha na mão até que a largou e gritou: - partiste-te a chave, o Martinho partiu a chave, o Martinho partiu a chave –, continuou repetindo a frase com voz estridente e nervosa.

 

Desnecessário será dizer que as horas seguintes foram para mim traumáticas. Nem a minha Mãe acreditou em mim. Levei umas valentes bofetadas e fui obrigado a percorrer sozinho a distância até a freguesia mais próxima – Loivos do Monte – onde existia o único serralheiro capaz de soldar a malfadada chave. Esperei que ele efectuasse o trabalho, paguei com o dinheiro que a minha Mãe me havia dado (e que tanta falta lhe fazia na época) e fiz o caminho de volta.

 

Já foi há uns anos mas, os equívocos e os logros continuam a ocorrer à minha volta. E também os respectivos custos económicos. Só o tempo e os intervenientes é que são diferentes, ou talvez não...

 

Vem a propósito os cortes dos subsídios de férias e de Natal que estão a acontecer na CGD que são um equívoco e um logro. Vejamos:

A Caixa Geral de Depósitos é uma Instituição Bancária que, independentemente da sua longa história, foi transformada em 1993 em sociedade anónima passando a reger-se pelas mesmas leis e normas das demais empresas privadas do sector (leia-se Bancos). Em termos laborais, os seus trabalhadores deixam a sua ligação ao sector público e os novos contratos passam a ser celebrados em regime de contrato individual de trabalho. Resumindo através do Decreto-lei 287/93 de 20 de Agosto é-lhe consagrada a natureza de Banco universal, inserido num mercado plenamente concorrencial.

 

Nessa época eu estava no Banco Nacional Ultramarino onde fui admitido em 1990. Em 2001 com a fusão do BNU na CGD esta acentuou ainda mais o seu objecto social transformando-se num Banco comercial e líder destacado num mercado cada vez mais competitivo. Só para termos uma ideia, de 2001 a 2010 a CGD teve lucros líquidos superiores a 5 mil milhões de euros. Escrevi bem! Isso mesmo eu repito: 5 mil milhões de euros, já limpos de impostos e demais encargos. Obviamente que o estado português único accionista levou deste bolo a parte de leão. A forma como o usou não é seguramente da responsabilidade das várias Administrações e muito menos dos seus trabalhadores. Uns e outros fizeram o que lhe pediram e muitos mais. Trabalharam fortemente, num ambiente competitivo e sem horário. Qual 7 horas qual que? 9, 10 11, 12 horas por dia e por vezes ao fim-de-semana Trabalhos extraordinário remunerado? Não senhor! Nem pensar. Objectivos comerciais a cumprir isso sim! A CGD transformou-se, rejuvenesceu os seus Quadros, modernizou-se, mudou a sua imagem, tornou-se um Banco internacional, uma empresa altamente lucrativa, a galinha dos ovos de ouro, a chave para a resolução de todos os problemas de vários governos.

 

Mas não é que.... Mais uma vez... Trás! Alguém partiu a chave! De repente (leia-se OE 2011) alguém decidiu que a CGD é Estado e pronto. Aí vieram os primeiros cortes. Ainda com adaptações (assim uma espécie de favor), mas que já não são válidas para o OE 2012. Num ano a CGD passou de Banco com objectivos comerciais altíssimos para uma espécie de... repartição pública. Surreal não é? Não não, a palavra certa é (lembram-se) equívoco. Para tudo estar conforme só faltava o logro e alguém que gritasse que quem partiu a chave não foram os governos – este e os anteriores -, não senhor. Neste caso já não é o menino, o filho da professora, mas é gente bem vestida e bem-falante (e eventualmente bem paga) que agora “grita” que quem partiu a chave foram os trabalhadores da CGD, uns privilegiados, que até têm emprego, os malandros que cometeram o crime de produzirem 500 milhões de euros de lucros líquidos médios anuais.

 

Agora como há 40 anos a “Professora” nem quer ouvir falar das óbvias culpas do seu “filhinho”. E também não está a ser nada fácil convencer as “Mães” desta aldeia de que não foram os trabalhadores da CGD que partiram a chave.

 

Esperemos não ter de atravessar o monte por caminhos sinuosos até a aldeia mais próxima para que o serralheiro local conserte a chave e nos cobre o dinheiro que tanto nos custou a ganhar e tanta falta nos faz...

publicado por salvoconduto às 22:31
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1 comentário:
De lino a 7 de Fevereiro de 2012 às 19:08
A quem o dizes! A empresa onde trabalho, privatizada em 1990 e comprada pelo Mira Amaral em 2004 com autorização da Ferreira Leite para meter no bolsos dos opus dei mais 183 milhões de euros do que os oferecidos pelo segundo candidato a comprador, nem sequer capitais públicos tem e lá se foram os subsídios!
Abraço

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