Terça-feira, 31 de Julho de 2012

O mensageiro

 

 

Os mais velhos por certo se lembrarão quando o país foi invadido pelos chamados "Cursos de Cristandade". A coisa era de tal maneira milagrosa que só para terem uma pequena ideia: o pior dos meliantes inscrevia-se ou era levado a inscrever-se num desses cursos, um fim-de-semana passado em recolhimento, normalmente num hotel ou SPA daquela época, com os seus pares sob os auspícios da santa igreja e da habitual brigada dos bons costumes e paf, na segunda-feira já estavam a bater com a mão no peito e a exclamar "senhor, senhor, eu sou crente, livrai-me dos meus pecados e minha alma será tua!". Passavam a ir todos os domingos à missa, faziam questão de comungar e de se reunir durante uns minutos à porta da igreja para mostrarem uns aos outros o terço ou cruz que passaram a trazer religiosamente no bolso, houve mesmo quem deixasse de fumar para poder utilizar o bolso que normalmente era destinado ao maço de tabaco, mas que era o que mais jeito dava quando se queria exibir tais objectos. Faziam-no com a perícia digna de quem exibia um crachá de uma polícia qualquer, agora estavam entregues ao Senhor espalhavam a sua fé e davam conta do milagre com que tinham sido bafejados.


Tudo isto a propósito de quê? Os que aqui vêm mais assiduamente sabem que costumo passar os olhos por tudo quanto de bom se vai escrevendo por essa blogosfera fora, o "arrastão" não é excepção daí que tenha dado de caras, para não dizer de trombas, com o último escrito de Daniel Oliveira, aquele distinto militante do Bloco que está sempre com um pé dentro e outro pé fora, diz que é uma virtude e nisso me faz lembrar as criaturas dos cursos de cristandade que ao fim de semana se tornavam nos devotos dos devotos e durante a semana espoliavam os que se lhe atravessassem no caminho, não sem previamente se benzerem.


Pois bem Daniel Oliveira saca do crucifixo e investe contra os infiéis, a todos tenta reconverter mostrando-lhes o novo caminho, o das "alterna-tivas". Até Outubro data em que que realizará um importante "curso de cristandade" teremos que levar com ele, diz que "Portugal vive um momento único. Daqueles momentos fundadores de um novo tempo", provavelmente o Messias aparecerá em carne e osso no Congresso das Alternativas. Prega a nova fé, divulga a mensagem e procura congregar vontades seja à esquerda seja à direita.

 

Que a direita "que não se sente representada pelo fanatismo ideológico que nos governa terá de fazer um corte com o deslumbramento de recém-estrangeirado e com uma cultura de subjugação ao poder finan-ceiro, dando lugar a um pragmatismo patriótico que não a leve na enxur-rada do descontentamento que virá."

 

Que o PS "terá de abandonar a sua estratégia de sempre, quando está na oposição (já para não falar da que usa quando está no governo) ".

 

Que o PCP "terá de compreender que, num tempo absolutamente novo, com uma realidade laboral e social completamente diferente, já não chega preservar uma memória de luta."

 

Que o BE "terá de sair da encruzilhada em que se encontra" e vaticina-lhe que "dificilmente, ao contrário de outros, sobreviverá ao seu próprio autismo".

 

Mas não se fica por aqui, os cursos de cristandade também era muito abrangentes, cabia lá tudo, católicos, protestantes, agnósticos, ateus, beatos e meliantes, tudo tinha lá entrada garantido que fosse que saíam de lá a bater com uma mão no peito e um terço na outra, lavava-se tudo, a alma também. No mesmo molho onde mete a direita, o PS, PCP e BE, também lá mete os empresários, são filhos de Deus, "que têm de perceber que, neste momento específico, o capitalismo financeiro, que vive da especulação à custa da produção, é seu inimigo", porque nos outros momentos já o não será...

 

E os sindicatos? Ui, a esses Daniel Oliveira não faz a coisa por menos, "terão de reaprender quase tudo", tal como aqueles feridos de guerra que tinham que ir para o Alcoitão. Talvez por isso o manifesto tenha sido assinado por uns quantos sindicalistas, os mais iluminados, alguns dizem-se históricos, outros, já reformados, eternizam-se em sindicatos que transformaram em lar da terceira idade com receio que lhes dê um treco e estejam sozinhos em casa.

 

Falta alguém? Claro que falta, já disse que a mensagem é para todos e no Congresso cabe lá tudo, desde que se inscrevam claro, também “os pequenos movimentos sociais dispersos têm de ultrapassar a fase mais ou menos espontânea ou de tribo em que vivem e saber dar conteúdo político à manifestação da indignação e frustração das pessoas", assim como quem diz "vão lá que a gente ensina-vos".

 

Daniel Oliveira faz questão de acabar a mensagem da mesma forma como a iniciou "vivemos tempos únicos. Quase tudo tem de ser reaprendido."


Não fiquem assim tão desanimados, é que há remédio, mas só em Outubro, no Congresso. Vão lá, vão ver que não se arrependerão, façam de conta que aquilo é o Alcoitão ou um Curso de Cristandade, já imaginaram o que era ver tudo aos abraços? Direita, esquerda, esquerda à esquerda da esquerda, esquerda radical, esquerda caviar, empresários, grémios, sindicatos, movimentos dos sem tecto, senhorios, inquilinos, eu sei lá.

 

Ganda Daniel, à tua beira, aqueles sujeitos de cabelo à escovinha, gravata e camisa branca, que me batiam à porta a divulgar a palavra do Senhor, roer-se-iam de inveja.

 

publicado por salvoconduto às 01:28
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3 comentários:
De CBO a 31 de Julho de 2012 às 17:27
Falhei o Curso de Cristandade com a mesma destreza com que me livrei das Testemunhas de Jeová. E falhei também o post do Daniel Oliveira, um tipo que uma vezes diz coisas acertadas e outras me faz lembrar outro Daniel Oliveira que bajulava o Scolari e não faço a mínima ideia por onde andará.
Bom, vou até ao Arrastão ler o artigo, para não jurar falso...
De daciano jose a 1 de Agosto de 2012 às 23:47
é isso. vão presentear o pagode com mais uma exibição da ópera bufa 'O OPORTUNISMO À LA CARTE'. nos dias que correm os feijões para o caldo estão cada vez mais caros ...
De Pata Negra a 3 de Agosto de 2012 às 00:09
Salvoconduto na sua melhor forma e na nossa melhor razão.
Um abraço sem "tus" (tus - chamavam a esses de que falas)

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