Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

Fernando Lugo, outro "insuportável"

Não é só na Bolívia, na Venezuela ou no Equador, também no Paraguai. A recente denúncia feita pelo presidente paraguaio Fernando Lugo, sobre uma comprovada reunião conspiratória, põe em debate uma novidade dos tempos actuais. Os donos do poder estão incomodados, já não suportam mais tantos governos independentes no hemisfério.

Para conspirar contra o presidente Hugo Chávez demoraram três anos – o seu mandato havia começado em 2 de março de 1999. Logo tentaram contra Evo Morales, cujo governo se iniciou em 26 de Janeiro de 2006 – lá o intervalo foi de dez meses. O equatoriano Rafael Correa, que começou seu mandato em 15 de Março de 2007, teve que esperar nove meses para se inteirar da primeira tentativa de conspiração.

Três anos, dez meses, nove meses. Ao sacerdote terceiro-mundista Fernando Lugo, presidente eleito pelo povo do Paraguai, deram apenas três semanas.

O que acontece no Paraguai revela o seu grau de fragilidade como Estado-Nação capitalista, o protótipo do protagonismo mafioso plantado nas estruturas políticas, militares e sociais do país. A dimensão da impunidade é o estímulo para desafiar o novo governo desde o primeiro dia. Estão a aproveitar a ausência de um poderoso movimento social e político que defenda Lugo. De todas as maneiras isso não pode evitar a mudança que acaba de iniciar Fernando Lugo. Então a tarefa é desestabilizá-lo.

Na Venezuela, tiveram que esperar até que Chávez falasse das "leis de aprofundamento da revolução", em Setembro de 2001, pois estas falavam no direito social da terra, na recuperação do petróleo, da PSDVA e  outras coisas muito feias para a elite. Nos três anos prévios, a tarefa foi tentar comprá-lo, corrompê-lo e agradá-lo. Reveladora a declaração de Pedro Carmona numa entrevista em Junho de 1999. "Este homem que faça o que bem quiser com sua Constituição Bolivariana e seus discursos incendiários, desde que não queira tocar no petróleo e tumultuar este país". Esse sentido de poder de classe conduziu o golpe de 11 de abril de 2002.

Com Evo, a situação que levou à primeira conspiração de Novembro de 2006 começou seis meses antes, no mesmíssimo dia 1º de maio em que os hidrocarbonetos foram nacionalizados. Não somente foi a resposta das multinacionais afectadas, começando pela Petrobras, mas também o susto dos chefes de Santa Cruz e os outros estados com reservas de gás: entenderam que estavam a ponto de perder o seu controlo sobre esses recursos. Cinco meses depois, já andavam a reunir-se com agentes da embaixada dos Estados Unidos, buscando aliados nas Forças Armadas, na igreja, junto à USAID, à CIA e outros órgãos e culminaram há poucos dias com uma tentativa de golpe de estado.

Quanto a Correa, os ataques começaram no Parlamento opositor que quase lhe fez perder quatro ministros no primeiro ano. O movimento cresceu com a resolução presidencial de acabar com a base norte-americana de Manta em 2009 e por sua vontade de pertencer ao "socialismo do século 21".

Há muita gente que não quer perder os privilégios adquiridos durante os governos da ditadura, e que vão procurar a qualquer custo impedir que Lugo realize as mudanças de forma pacífica e transparente.

A incrível lembrança de mais de 300 golpes sofridos pela América Latina no século 20 deve fazer-nos pensar no que verdadeira-mente ali está a acontecer nos últimos tempos e o que ali faz a 4ª esquadra dos Estados-Unidos.

 

Fonte: Página 12

publicado por salvoconduto às 00:01
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9 comentários:
De Ana Camarra a 26 de Setembro de 2008 às 00:18
Está a ver para que lado param as modas...
Para ver se por acaso descobrem armas biológicas, taticas, nucleares, nalgum país que os esteja a importunar, principalmente se tiver petroleo...
Isso dá sempre jeito.

beijos
De Suzette a 26 de Setembro de 2008 às 00:21
É interessante reparar que este países têm algo em comum, a mesma vontade de os derrubarem pelas oligarquias instaladas e sempre com a ajuda do amigo do "Norte".
De maria a 26 de Setembro de 2008 às 01:30
Vou resumir o mais possível para ver se consigo comentar:

Os que têm algo a perder tentarão sempre não perder os seus privilégios.
Só quem trabalha e nada tem nada perde...

Beijo

(Vamos ver se entra, desta vez)
De Pedro Oliveira a 26 de Setembro de 2008 às 08:50
Já era tempo daquela região se unir e desenvolver.As populaçãoes não param de sofrer.
De patti a 26 de Setembro de 2008 às 09:17
É sempre que inevitável que os privilegiados se mexam para não perderem o seu estatuto. E é por aí que tudo se torna mais difícil para os Lugos desta vida.
De Justine a 26 de Setembro de 2008 às 14:54
Acendem-se luzes de esperança na America Latina. E há quem queira apagá-las, a qualquer preço...como já fizeram tantas vezes e noutros locais
De Lúcia a 26 de Setembro de 2008 às 16:06
Vou-te dizer: muito do que tenho sabido sobre o que se vem passando na América Latina, é aqui que aprendo e me actualizo. Muitas vezes, saio daqui e procuro mais informações. Além dos excelentes textos que escreves, tens um blog didáctico! Obrigado, por isso.
Bom fim de semana
De Caim a 27 de Setembro de 2008 às 06:48
O Brasil também se encaixa nessa categoria amigo. O PIG (nomenclatura inglesa para porco que é utilizada aqui para determinar a imprensa mafiosa) é tentado a levantar inúmeras mentiras e imolações ao presidente Lula. E olha que o Lula não é radical. O que acontece na América Latina é que a elite branca - aquela que descende dos colonizadores espanhóis e portugueses - acha que pode tudo contra todos. Além de terem explorado por séculos índios e negros, continuam exercitando a doutrina do mando e desmando. E aí de quem pisa nos sapatos deles!
De Cris Caetano a 3 de Outubro de 2008 às 23:45
Primeiro permita-me dizer, que vivendo aqui no Brasil eu faço parte da elite branca, e fazer o quê, não é mesmo? Gostaria que na América Latina houvesse menos corrupção e mais democracia (aquela que consta na definição dos dicionários).
Acho que ainda por muitos anos, a América Latina - e o Brasil não se encaixa devido a seu contexto sócio-político ser diferente dos demais países -, infelizmente parecerá um barril de pólvora prestes a explodir. Por enquanto, o rastilho parece que acende, mas se apaga. E que continue assim.

Abreijos

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