Terça-feira, 21 de Outubro de 2008

Casas Solidárias

 

Sócrates, a mascote do bairro, só sabe estorvar. Calma, é outro Sócrates! É um porco de 270 quilos, que se planta no caminho dos rapazes que acarretam madeiras e placas de zinco desde o camião até à obra: uma casa de 18 metros  quadrados suportada por pilares para evitar o contacto com o lodo, quando vêm as inundações. Não será  um chalet daqueles que aparecem na revista "Casa e Jardim", mas significa uma grande diferença para aqueles que até agora se alojavam em barracas de cartão e plástico.

A dona da casa em construção é uma mãe tão jovem que parece ser a irmã dos seus filhos. Esgotada a paciência, enxota Sócrates com um pau, para júbilo dos pedreiros amadores e dos vizinhos que vieram deitar uma mão. Apenas o quadrúpede desaparece, volta o ruído dos martelos e das pás. Uma melodia agradável ao ouvido dos cerca de 2.000 habitantes de 13 de Julho, um aglomerado de barracos a Oeste de Buenos Aires.

Quando Rodrigo Medina lhes disse que a organização "Um Tecto Para o Meu País", planeava construir 47 casas, a primeira reacção das pessoas foi perguntar-lhe por quem teriam de votar ou a que comício tinham de assistir para candidatar-se ao projecto.

A estas pessoas, submetidas desde sempre às práticas do clientelismo político, parecia-lhes um conto de fadas que, pela quantia de 380 pesos e um pouco de ajuda da sua parte, pudessem obter uma casita como Deus manda. Só se convenceram de que o assunto era sério, quando os camiões atravessaram a ponte que separa o aglomerado da localidade de José León Suárez, seguidos pelos autocarros que traziam os voluntários. "Ao princípio deu-nos vergonha que vissem o lixo que se amontoa nos caminhos e a gente que consome drogas à vista de todos. Mas mais culpados nos sentimos por ter duvidado da boa fé destes rapazes", diz Estela, a "alcadessa" da comunidade.

Nesta campanha que se desenrola nos bairros marginais da capital argentina, participam 1.500 jovens de toda a América Latina. Também participam uns quantos espanhóis que frequentam a Universidade de Buenos Aires.

Identificamo-los facilmente pela pronúncia, mas eles recusam-se a falar ou a tirar uma fotografia. "Nós, espanhóis, estamos a fazer má figura com essa atitude de aparecer na imprensa como redentores do Terceiro Mundo", explica um deles.

Os voluntários de um "Tecto para o Meu País" já socorreram os desalojados dos terramotos em El Salvador e no Peru.

A organização conta com uma equipa de intervenção rápida para intervir nesses cataclis-mos. No caso do aglomerado 13 de Julho, intervêm para substituir-se a um governo que se preza de "progressista" e de impulsionar um modelo de crescimento "com inclusão social". Como música dum qualquer hino soa bem, outra coisa porém é atravessar a ponte e verificar as condições em que vive esta gente.

Por esta altura estarão vocês a pensar que não havia necessidade de ter metido o raio do porco na história, mas pensem nisto: não fora o porco e vocês não saberiam provavelmente deste trabalho da organização "Um Tecto Para o Meu País". Bem sei, bem sei que ele não merecia este nome, coitado. Acreditem, o porco existe e chama-se mesmo Sócrates...

 

Fonte: Elmundo

publicado por salvoconduto às 00:01
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11 comentários:
De Ana Camarra a 21 de Outubro de 2008 às 00:10
Pois, em primeiro lugar belo nome para o porco.

Em segundo lugar mais um testemunho de humanidade.

Obrigado, amigo

um beijos
De carlosbarbosaoli a 21 de Outubro de 2008 às 00:11
Quando li o porco Sócrates, pensei que a história ia para a outro lado e já estava a preparar um comentário a jeito.
Afinal era sobre a minha Argentina! Ainda bem que o Bairro 13 julho- um dos mais pobres e imundos dos arredores de Buenos Aires- vai ter este apoio do voluntariado. Uma boa notícia para cabar a noite.
De patti a 21 de Outubro de 2008 às 00:25
Esta organização ou outra com um nome muito parecido, já esteve em Portugal, salvo erro no norte, a ajudar a reconstruir casas.
São voluntários, que durante o seu período de férias, se disponibilizam a ir para países carenciados e pagam tudo do seu prórpio bolso: viagem, estadia e alimentação.
Eu adorava fazer parte de um projecto assim!
De Cris Caetano a 21 de Outubro de 2008 às 00:34
Que bom nome para um... porquinho.

Abreijos
De São Banza a 21 de Outubro de 2008 às 00:46
Como diza Aleixo , até pra animal é preciso ter sorte...


Convido-te a veres civilização maia-parte 1 no SÃO.


Fica bem.
De maria a 21 de Outubro de 2008 às 01:15
Bom mesmo foi tomar conhecimento deste projecto.
O porco (porcão, com 270 kilos, nem imagino) pode sempre servir para um convívio entre as famílias que passaram a "ter uma casinha como deus manda", certo?

Abreijos
De violeta a 21 de Outubro de 2008 às 01:21
A ideia é brilhante, a iniciativa dos voluntários ainda mais. o porco, esse, além de porco é um intelectual dado a desvastar: Qualquer semelhança com outros porcos, perdão, sócrates é pura coincidência...
boa noite!
De Carla a 21 de Outubro de 2008 às 10:22
...coitado do Sócrates (o outro, o filósofo), porque quanto a este tenho pena e do porco que tão infeliz nome recebeu no seu baptismo...
Um bom texto com destaque para uma organização que consegue fazer um trabalho que o governo esquece...
De Pedro Oliveira a 21 de Outubro de 2008 às 12:12
Já há algum tempo que o Vila Forte, estava para linkar um texto do "vizinho forte", salvo -conduto. com a devida vénia, informo que hoje esta história de solidariedade, na Argentina, vai ser linkado em terras,virtuais, de D. Fuas Roupinho.
abraço
De justine a 21 de Outubro de 2008 às 12:37
Aqui está uma situação em que o meio - o truque- é justificado pelo fim - dar-nos a conhecer como a Anérica Latina está a mexer-se!
Belo post!

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