Segunda-feira, 2 de Março de 2009

Escravatura II

Centenas de cambojanos são escravizados todos os anos depois serem vendidos a barcos de pesca tailandeses, nos quais trabalham sem salário, às vezes durante anos, constantemente ameaçados de morte por parte dos seus exploradores. A maioria das vítimas procede das zonas rurais mais pobres, e cai nas redes de tráfico ao acreditarem em promessas de trabalho remunerado como operários na construção ou nas fábricas da Tailândia.

O pesadelo começa quando os traficantes ficam com os seus passaportes e quando cruzam ilegalmente a fronteira para serem levados para portos tailandeses, onde são embarcados à força nos pesqueiros que pescam nas águas do Mar da China Meridional e que evitam atracar na Tailândia durante meses ou anos.

Deixo-vos aqui o caso de Matysa, um dos 17 cambojanos resgatados em Dezembro passado dum calabouço para imigrantes ilegais no estado malaio de Sarawak, na ilha do Bornéu, que ilustra a desventurada odisseia por que passam as vítimas desta forma de escravatura denunciada pelas Nações Unidas e organizações comprometidas com a defesa dos Direitos Humanos.

Matysa, de 28 anos, tal como outros cambojanos, ficou à mercê das máfias ao aceitar a tentadora oferta de ganhar 6.000 bats (cerca de 110 euros) que lhe fez um vizinho do bairro de Phnom Penh no qual residia.

"Cruzei a fronteira e ali me meteram num carro que me levou directo a uma pensão em Pattani (sul da Tailândia).

Não me deixaram sair da habitação até ao dia em que embarquei. Um capitão tinha-me comprado", relatou.

Já no pesqueiro, Matysa encontrou nove cambojanos que tinham embarcado noutro porto, a uns 50 quilómetros ao sul de Bangkok. "O capitão disse que não sairíamos do barco durante dois anos e que só receberíamos no fim desse tempo", recordou.

Durante vários meses, a tripulação cambojana foi obrigada a trabalhar sem descanso mesmo quando ficavam doentes. 
Por vezes, eram chicoteados ou ameaçados pelo capitão, armado com uma pistola e um machete.

"As condições são deliberadamente muito duras porque muitos patrões, que andam sempre armados, preferem que os pescadores escapem e assim evitar pagar-lhes seja o que for", explicou Manfred Hornung, consultor da Licadho, um dos grupos humanitários que combate esta praga.

A Licadho, que investiga estes delitos, dispõe de testemunhas que asseguram ter visto matar a tiro cambojanos a bordo dos pesqueiros e atirar os cadáveres pela borda fora no alto mar depois de se terem queixado do trabalho.

Depois de três meses cativo, Matysa viu a oportunidade de escapar quando o seu barco atracou no porto de Tanjung Manis, no estado malaio de Sarawak. Mas o seu pesadelo não acabou. Depois de fugir do barco, foi contratado para trabalhar numa plantação e extracção de óleo de palma, do Bornéu, "Davam-nos só arroz e hortaliças. Quando perguntei pelo meu salário, disseram-me que eu tinha sido vendido à plantação, que o capataz tinha pago para comprar-me", explicou Matysa.

Meses depois, escapou da exploração agrícola e, depois vaguear vários dias, foi detido pela Polícia e encarcerado por entrar ilegalmente na Malásia.

Há dois meses, Matysa foi repatriado para o Camboja, onde sobrevive graças à venda dos peixes que pesca diariamente no rio. Pobre mas livre.

 

Fonte: El Mundo

publicado por salvoconduto às 20:29
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16 comentários:
De patti a 2 de Março de 2009 às 21:22
Vi num programa da Oprah, que muitos deles são crianças.
De Mugabe a 3 de Março de 2009 às 13:04
Pois...Oprah hummmmmm
De Bluevelvet a 2 de Março de 2009 às 21:31
O que me espanta e revolta é que Organizações como as que referes tenham conhecimento destes horrores e nada se faça para acabar com eles.
Admirável mundo novo??? Uma tristeza, isso sim.
Abreijinhos
De Ferreira-Pinto a 2 de Março de 2009 às 21:52
A cupidez e a ganância, por um lado, e o fazer de conta, pelo outro, vão permitindo que por esse mundo fora a exploração do homem pelo homem seja uma realidade assim crua.
De rff a 2 de Março de 2009 às 22:48
E não há maior riqueza que a liberdade....
De anamar a 3 de Março de 2009 às 00:14
Não há muitas palavras a acrescentar! elas ficam sufocadas pela indignaçâo ! E faz-me lembrar o meu avô que costumava dizer, " o homem é o animal mais imundo que existe ao cimo da terra"
Abraço
De Samuel a 3 de Março de 2009 às 00:48
Aquilo que é fundamental e urgente mudar neste mundo cão, não está à superfície. Anda lá bem no fundo do homem...

Abraço
De Ana Camarra a 3 de Março de 2009 às 00:54
A especie humana deve ser a única capaz de maltratar o seu semelhante assim...

Mais uma vez obrigado.
beijos
De violeta a 3 de Março de 2009 às 01:48
e somos seres racionais, certo?
fiquei deveras revoltada, porque ela encerra em sil muitas vidas não relatdas, não descobertas. Vítimas da ganãncia odo homem.
De Bluevelvet a 3 de Março de 2009 às 02:33
Salvo,
voltei só para te dizer que o teu comentário está lá no sítiozinho dele, onde sempre esteve.
Num Biste?
Abreijinhos
De maria a 3 de Março de 2009 às 03:08
Nem sei muito bem o que dizer...
Que este é um mundo cão, que as notícias mais parecem filmes de horror...

Abreijos

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