Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Não me lixem!

Jaime Neves promovido a general e considerado herói nacional? E onde pára o pudor e a vergonha? Em qualquer país verdadeiramen-te democrático Jaime Neves já teria sido julgado pelo seu envolvi-mento em massacres durante a guerra colonial.

35 anos depois e a verdadeira história da guerra colonial continua por fazer, de tal maneira que se tentam enterrar bem fundo factos que nos deviam envergonhar e pelos quais já devíamos ter pedido perdão.

Que o digam os povos de Wiryamu, Chawola e Juwau todos eles em Moçambique barbaramente massacrados e onde Jaime Neves que então chefiava os Comandos teve papel de destaque.

Pela dimensão e impacto na altura destaco Wiryamu, onde centenas de pessoas, entre elas mulheres grávidas e crianças, foram chacinadas e incendiadas vivas dentro das suas palhotas, corria o mês de Dezembro de 1972.

A tragédia ganha nova dimensão quando em época de celebração de Abril se resolve premiar um dos seus altos responsáveis e promovê-lo a general precisamente pelo seu passado militar.

Em Dezembro de 1972 estava próximo do local da tragédia e senti revolta e vergonha por fazer parte de um exército que se conduzia de tal maneira. Para piorar a situação ainda tive que conhecer pessoalmente a besta humana que dá pelo nome de Jaime Neves, que ainda hoje é contra a independência das ex-colónias...

Não é segredo para os visitantes deste blogue que defendo que todos os criminosos de guerra e dos direitos humanos devem ser julgados independentemente da sua idade, cargo político ou militar. Mário Crespo tira-me do sério porque já é a segunda vez em poucos dias que faz o elogio de Jaime Neves, precisamente porque não pode ele ignorar estes factos porque há época também cumpria serviço militar em Moçambique. Seria preciso ser muito distraído para não se aperceber deles, embora na época o seu cuidado principal fosse acompanhar jornalisticamente Kaulza de Arriaga.

Não se me apaga da memória aquela mulher grávida ferida a tiro pelos homens de Jaime Neves, entre Vila Gouveia e o Guru, e que em boa hora o padre Faria obrigou o "Trinta" a descer o héli e recolhê-la. No chão ficaram dezenas de corpos de inocentes que o único crime que cometeram foi estar no caminho das tropas de Jaime Neves.

Mas estes factos foram riscados do livro oficial da história da guerra em terras de Moçambique. O poder actual age como se já não existissem testemunhas desse período. Mas muitos ainda continuamos vivos para repor a verdade de muitos factos tão vilmente escamoteados. Haja vergonha!

 

Para quem quiser conhecer melhor o que aconteceu em Wiryamu, pode fazê-lo aqui através de discurso directo do homem que na altura comandava a 6ª Companhia de Comandos, o alferes Antonino Melo, do qual vos deixo dois pequeníssimos excertos:

"...Caprichava-se na escolha da morte. As mulheres eram usadas sem pudor. Os homens caíam à paulada, pisados, outros a tiro. Um soldado de Tete matava as crianças à faca. Atirava-as ao ar como a uma bola de trapos e acabava com as suas graças na ponta da lâmina. Os que tentaram fugir foram abatidos a tiro. Também juntaram homens e mulheres em filas, colocaram-se em cunha, e berravam: «Batam palmas para se despedirem da vida.» De seguida, disparavam. Os corpos que caíam produziam um barulho surdo. Depois cobriam-nos com mato e lançavam o fósforo. As crianças pareciam línguas de fogo entre o fumo."

 

"...Metiam dez, talvez quinze pessoas, numa palhota, é difícil precisar neste momento. Foi tudo muito a correr, mas quando ficava cheia, lançavam as granadas e fechavam a porta. Passavam uns segundos. Antonino primeiro ouvia os gritos desesperados, silêncio quando as granadas rebentavam, o tecto subia, caía, a palhota incendiava-se. De novo gritos, choro. Poupava-se balas. Morriam queimados. Às vezes, a porta abria-se, alguém tentava fugir. Tiros. «Nestas operações, matar um ou vinte é indiferente. Depois de desencadeada, é para cumprir e seguir em frente. Tudo a eito.» A mesma expressão neutra."...

publicado por salvoconduto às 23:12
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25 comentários:
De maria a 24 de Abril de 2009 às 01:51
Li-te em viés. Porque sei o que se passou em Wiryamu. Porque sei o que vão fazer ao comando que anda em liberdade em vez de estar preso.
Fico agoniada. A provocação é ainda maior quando se escolhe esta data para o fazer.
A vontade de ir às fuças a alguns vai crescendo...

Beijos
De Francisco Dores a 8 de Novembro de 2014 às 22:48
Maria, sabe realmente o que se passou em Wiryamu ? O que vão fazer ao Comando ? (Qual Comando ?) O Alferes Antonino Melo ou a razão deste post Jaime Neves ? A maioria das pessoas, não sabe do que está a falar !!!!! Eu estava a escassos 150 kms deste local, e convivi com muita gente próxima a este infeliz acto. A ESTÓRIA está mal contada. Se quiser e qualquer dia, conto-a, com pormenores e pormaiores.
De victor nunes dos santos a 6 de Setembro de 2016 às 14:39
Ao percorrer a Net, deparei com este blog e a postagem sobre Wiryamu. Tive curiosidade em ler atentamente o texto e todos os comentários e fico triste ao verificar que o qutor do blog apresenta factos que desconhece e pela foram como apresenta levanta revolta emocianoal a muias pessoas que nunca conhecera am realidade de uma guerrae reagem áquilo que "lhes servem".
Eu fui recrutado em Janeiro de 1972, em Boane-Moçambique. dado ao meu carácter foi escolhido para frequentar o 6º. Curso de Comandos de Moçambique, em Montepuez, onde pertenci ao Grupo de Cadetes, juntamente com o Antonino, Vilela, Abreu e outros (agora não me recordo dos nomes.). Fiz algumas provas, mas não acabei o Curso porque tive que ser evacuado para uma intervenção cirúrgica. No entanto, as poucas semanas que lá passei, form suficientes para absorver o "espírito comando" ( que não é de assassinos, como aqui querem fazer crer). Conheci pessoalmene o major Jaime Neves, de quem tinha muia estima e admiração. Continuei o meu serviço militar, como Alferes Miliciano numa Companhia Operacional , que actuava no Niassa e Cabo Delgado. Contactei sempre com os meus ex-camaradas de grupo e soube o que aconteceu em Wiryamu e o Antonino chegou a aComandante da Companhia, sabe porquê. Todos nós ficamos com "traumas de guerra", mas nunca quisemos protagonismo resultante de uma fase de vida em que só tínhamos 20-21 anos. Ele que conte toda a verdade, como tudo se passou. Conte os 15 dias que antecederam ao acontecimento, o que os seus homens fizeram em benefício das populações. Se algo correu mal, foi resultante da ingratidão de alguns elementos infiltrados na população. Se ele ANTONINO, não soube segurar a reacção dos seus homens, foi porque não tinha competências para ser um BOM COMANDANTE e o espírito de COMANDO, tinha-o perdido há muito...
De Anónimo a 14 de Julho de 2017 às 00:49
maria, sabes o que se passou em wiryamu ? conta ai para nos que somos ignorantes.
De Bluevelvet a 24 de Abril de 2009 às 01:55
Não conheço a fundo a questão que referes (mea culpa).
Mas sendo como dizes, só posso estar de acordo contigo, tanto mais que o teu relato é impressionante.
Abreijinhos
De hb a 24 de Abril de 2009 às 10:13
Inacreditável.

De qualquer das formas é óbvio que o poder político, ignorando o passado colonial, está a pagar o favor a Jaime Neves (e de outros como ele) pelo 25 de Novembro.
De Pedro Oliveira a 24 de Abril de 2009 às 10:28
Somos o país dos favores,guerra colonial,fp 25,......
somos um país de merda é o que somos.Desculpem ,mas há coisas que me fazem sair do sério.
bom fds
De Si a 24 de Abril de 2009 às 11:06
Àparte quaisquer conotações políticas que exerçam influência sobre este assunto, e sem comentar as atitudes de Jaime Neves, cuja faceta neste conflito desconheço, acho que nunca ninguém saberá exactamente o que se passou verdadeiramente na Guerra Colonial, simplesmente porque ouvir contar, ouvir falar, ou mesmo ver imagens da altura, é desmedidadamente diferente de viver as situações. Todos os que por lá passaram trazem recordações terríveis, que, mesmo contadas ao pormenor, nunca conseguirão transmitir naquilo em que os homens se transformam, quando levados ao limite racional e os instintos animais se revelam.
Em Moçambique, em Angola, na Guiné, tal como no Vietname, quem lá foi, mesmo sem ser ferido, não regressou ileso.
De justine a 24 de Abril de 2009 às 14:10
Profundamente nauseada com todo este assunto da promoção da besta assassina, acho que é mais um sinal de que mãos estão a governar este país.
Solidária com o teu post. É importante denunciar, gritar o nosso repúdio.
De Pata Negra a 24 de Abril de 2009 às 20:39
O mais engraçado é que primeiro apareceu a notícia do Jaime Neves e depois, para baralhar os ânimos, vieram com o Otelo! Quem não os conhecer que os compre! Pensam-nas todas!
Mais vale um Otelo coronel de que um Jaime Neves general.
De mugabe a 25 de Abril de 2009 às 02:30
Parabens pela denúncia.
Jaime Neves é um assassino que deveria ser julgado por crimes de guerra e preso.
Um facínora, fascista !
De Anónimo a 14 de Julho de 2017 às 01:51
mugabe,por acaso es o presidente da rodesia, actual zimbaubue ? um facinora democratico canibal.
De Anónimo a 9 de Junho de 2009 às 19:55
A 6ª companhia de Comandos não actuou em Moçambique, mas sim em Angola... Haja cuidado com o que se escreve se querem ter credibilidade.
De salvoconduto a 9 de Junho de 2009 às 20:11
Querem lá ver que o próprio comandante da companhia estava em Angola julgando que estava em Moçambique?

Meu caro anónimo, está na hora de se actualizar:
http://group.xiconhoca.com/2008/11/24/guer-col-mocambique-aldeia-de-wiryamu-1972-viagem-ao-fundo-do-terror/
De Anónimo a 22 de Junho de 2009 às 09:37
Meu caro salvo conduto e demais participantes, no que se refere a actualizações já vi que não são conhecedores da história dos comandos portugueses.
Referem-se à 6ª Companhia de Comandos e quando na verdade estão a falar da 6ª Companhia de Comandos Moçambique, são coisas, pessoas, locais e datas totalmente distintas . Há sempre tempo para aprender...
De António Carlos a 19 de Março de 2011 às 11:46
A 6ªa companhia de comandos comandada pelo alferes Antonino Melo, era de facto a 6ª, mas atenção: A 6ª Comapnhia de Comandos DE MOÇAMBIQUE. A 6ª Companhia de Comandos que esteve em Angola, foi treinada e recrutada na então Metrópole, e prestou posteriormente serviço em Angola. A 6ª Companhia de Comandos de que se fala e que esteve em Wiriamu, era composta por moçambicanos, ou por gente que lá vivia há muito tempo, como é o caso do alferes Antonino Melo. O esclarecimento é fácil e fica feito.
Quanto a esta história triste de Wiryamu, Juwau e Chawola, temos de dizer que a peça chave não foi a 6ª companhia de comandos, mas sim a figura de Chico Kalavache, conhecido em Moçambique pelos opositores ao regime como Chico Feio. Era um agente da PIDE/DGS e foi ele que realmente, comandou os homens naquele dia.
De Anónimo a 14 de Julho de 2017 às 00:12
anonimo onde serviste o servico militar ? e que so dizes asneiras, provalmente na tropa foste basico.
De Ana Santos a 2 de Novembro de 2009 às 13:22
Engraçado o meu pai foi comando e nega algumas crueldades, porém a minha madrasta foi vitima e conta abertamente toda a barbaridade enquanto o meu pai baixa a cabeça e foge ao assunto.
Creio que os ex-combatentes portugueses ou tem muita vergonha ( e devem ter) ou tem memorias suprimidas pelo trauma. Mas acredito sim na descrição da crueldade da guerra. Paga o justo pelo pecador, e muito homem de bom nome cometeu grandes crimes contra a humanidade.
Quando matamos um somos assassinos quando matamos muitos somos herois de guerra.
De Bolota a 28 de Janeiro de 2013 às 21:25
Sou um ex-combatente na Guiné e não tenho vergonha nenhuma. Se tenho alguma é destes valentões de merda que atraves á força de espalhar o medo, obtinham o respeito... que são completamente diferentes.

Eu proprio deixei que um enfermeiro nosso levasse uma tareia de quem ele tratou mal enquanto enfermeiro.

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