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Salvo-conduto

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Salvo-conduto

17
Nov09

Torturar e matar não é tão grave

salvoconduto

 

Sei que chego um dia atrasado, mas não é por isso que deixo de recordar o que aconteceu há vinte anos em El Salvador, o assassinato de seis jesuítas espanhóis. Escapou um, Jon Sobrino, a mente mais brilhante da Teologia da Libertação, conhecido pelas suas encarniçadas batalhas teológicas com Ratzinger, salvo por mero acaso, mas que teima em afirmar que Deus teve alguma coisa a ver com aquilo. Pequeno lapso que lhe perdoo, pois não consigo atinar que aquele seu deus deixasse morrer os outros seis, até porque as balas que os mataram estavam marcadas com o seu nome.

Os que tombaram, Ignacio Ellacuria, reitor da Universidade Centro-americana (UCA), a consciência crítica do país; Ignacio Martin-Baró, vice-reitor e pároco predilecto dos camponeses de Jayaque; Segundo Montes, director do Instituto de Direitos Humanos; Amando Lopez, ex-reitor da UCA de Manágua; e Juan Ramon Moreno, um dos grandes alfabetizadores do governo sandinista, caíram crivados pelo ódio, curiosamente no dia que actualmente é conhecido como o Dia internacional da Tolerância. Mas não foram só estes mártires espanhóis a tombarem. Também o jesuíta salvadorenho Joaquin Lopez e Lopez, a cozinheira Elba Ramos e a sua filha Celina Maricet não conseguiram evitar a garra do ódio e da injustiça.

"Já é hora de ir matar os jesuítas", assim foi ditada a sentença de morte, pelo general Juan Bustillo e os coronéis Ponce, Zepeda, Montano e Fuentes, membros do Alto Estado Maior salvadorenho. Um outro coronel, Guillermo Benavides, director da Academia Militar, executou-a. Foi há vinte anos que o ódio se vestiu de militar em El Salvador, como tantas vezes na América Latina, como hoje nas Honduras ou na Colômbia.

Duas décadas de impunidade depois teve que ser o actual presidente Mauricio Funes, candidato da Frente Farabundo Marti, ex-aluno da UCA, a fazer-lhes justiça outorgando-lhes a condecoração máxima do país e a pedir-lhes perdão.

E é o sobrevivente Jon Sobrino que exclama: "Na América Latina da impunidade, torturar e matar não é tão grave. Porquê? Ignacio Ellacuria era luz e farol numa sociedade martirizada pela guerra civil. Em 1985 foi mediador na troca da filha do presidente Napoleon Duarte por 22 presos políticos e 101 feridos de guerra da Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional (FMLN). Um posterior debate televisivo com o mayor Roberto DAubuisson, criador dos esquadrões da morte, autor intelectual do assassinato de Monsenhor Romero e fundador do partido Arena, que durante anos governou o país, situou-o no centro do ódio da extrema-direita. As suas denúncias contra as violações dos direitos humanos eram constantes."

Jon Sobrino narra os acontecimentos: "Golpearam com ferocidade as portas. Ellacuria, recém-chegado de Espanha, responde: "Esperem, já vou abrir, não estejam a fazer essa desordem". Os acontecimentos sucederam-se com rapidez. "Deitem-se no chão!", gritaram os militares e de imediato disparam.

Cinco jesuítas espanhóis são executados. Quando acabaram os tiros, aparece o padre Joaquin Lopez. Também é abatido. Já de retirada, um dos militares, o mais sangrento, alcunhado Satanás, ouve uns lamentos. Acende um fósforo. São Elba, a cozinheira a sua filha Celina. Disparam uma rajada contra elas. A ordem do coronel Benavides, "não quero testemunhas", cumpriu-se à rajada.”

O coronel Benavides e o sargento Mendoza foram condenados, só ficaram uns meses na prisão, uma amnistia libertou-os...

"O resultado foi muito simples: a absolvição dos executores, a condenação dos intermediários e o encobrimento do Alto Estado Maior".

Depois de tudo, como disse Sobrino, na América Latina da impunidade torturar e matar não é tão grave...

 

Fonte: elmundo.es

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