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Salvo-conduto

A erva daninha cresce todos os dias

A erva daninha cresce todos os dias

Salvo-conduto

14
Out10

"Não quero que me tratem como artista nem como animador, apenas como Mário Sepúlveda mineiro."

salvoconduto

 

 

"O Chile é um país que cresce nas tragédias. O poeta Fernando Alegria escreveu: ”quando um temporal nos golpeia ou um terramoto nos sacode, quando o Chile já não pode estar seguro das suas fronteiras, digo enfurecido: "viva o Chile, merda!”. No mês de Agosto e com metade do sul do país desmoronando-se por causa do terramoto de 27 de Fevereiro, a voz de alarme chegou do norte, do deserto de Atacama, soubemos que 33 mineiros tinham ficado soterrados depois do colapso de uma mina propriedade de uma empresa que violava todas as regras de segurança laboral.

 

33 homens, um deles boliviano, permaneceram encarcerados a 700 metros de profundidade durante 69 dias até que, e pese o show mediático montado pelo governo, começaram a sair um a um das profundezas da terra.

 

Enquanto escrevo estas linhas já saíram oito, e fizeram-no de pé, recebendo a saudação efusiva dos seus companheiros que os procuraram, encontraram e cavaram a dura rocha até que, com a linguagem parca dos mineiros, lhes disseram que os resgatariam dali.

 

Quando saiu o primeiro, o presidente Piñera deu graças a deus e à nomenclatura por ordem de importância de cargos, mas esqueceu-se de agradecer aos mineiros da Pensilvânia que, por terem experimentado uma tragédia similar, solidarizaram-se com os seus distantes companheiros de Atacama e forneceram os conhecimentos técnicos e parte da maquinaria que tornou possível o resgate. Tão pouco mencionou dois heróis silenciosos, dois internacionalistas do trabalho: James Stefanic e Matt Stafeard, os dois operadores que chegaram até aos mineiros soterrados e que são os grandes responsáveis do resgate.

 

Enquanto libertavam o segundo mineiro, que saía do calor e da humidade da sua prisão a 700 metros debaixo da terra para enfrentar-se com a seca e os 10 graus abaixo de zero do deserto, o presidente Piñera não resistiu à tentação de outra conferência de imprensa “in situ” e na qual, o único destaque, foi a vacilante declaração de intenções de fazer algo pela segurança laboral dos mineiros. Na sua torpeza evidente, Piñera omite que foi justamente a direita chilena a mais feroz opositora a que se regule a segurança laboral, indicando que os controlos são sinónimo de burocracia e atentam contra a liberdade do mercado.

 

No meio do seu show carregado de gestos religiosos, Piñera omitiu qualquer referência à triste situação dos outros duzentos e tal mineiros da mesma empresa, que trabalhavam na mesma mina, que desde o mês de Agosto não recebem os salários. Esta empresa atreveu-se até a declarar que os 33 soterrados não cobrariam por todos os dias debaixo de terra, porque bem vistas as coisas não tinham trabalhado. E a resposta do governo brilhou pela sua ausência.

 

A tragédia, esses 33 homens encarcerados, foi utilizada para marcar de invisibilidade o outro Chile, o país que não aparece na televisão, por exemplo os mapuche, cuja dramática greve de fome desapareceu da actualidade, esse sucedâneo do presente que se impõe à massa acrítica e dada ao aplauso que os modernos comunicadores chamam “opinião pública”.

 

É emocionante vê-los sair, um a um, e mais emocionante é ver que esses 33 mineiros, apesar das prendas prometidas, uma viajem a Espanha para ver um jogo do Real Madrid, uma viagem a Inglaterra para ver um jogo do Manchester United, um Iphone de última geração, uma viajem à Grécia, e até dez mil dólares a cada um doados por um empresário chileno que aspira a ser presidente do país, apesar de tudo isso continuam a ser mineiros e por isso mesmo anunciaram a criação de uma fundação que se preocupe com todos os trabalhadores mineiros afectados pela irresponsabilidade das empresas.

 

Resgatá-los dali foi uma proeza, mas uma proeza de todos os que suaram até consegui-lo e não dos encarregados do Show do resgate.

 

E a maior proeza será conseguir que no Chile se respeitem as normas de segurança laboral para que nunca mais 33 mineiros desapareçam nas entranhas da terra."

Luis Sepúlveda

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