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Salvo-conduto

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14
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A Argentina também teve o seu "Óscar Romero". Chamava-se Enrique Angelelli, foi o bispo de La Rioja, uma das províncias de menor população e das mais pobres da Argentina. Comprometido com as reivindicações populares por uma maior justiça social, Angelelli morreu em 4 de Agosto de 1976, em plena ditadura militar, naquilo a que o regime, a imprensa e a hierarquia da Igreja Católica classificou como um choque de automóveis.


Mas a verdadeira causa veio à luz do dia, um tribunal argentino classifica-o agora como um assassinato e quinta-feira passada ordenou a prisão do ex-ditador Jorge Videla a quem considera responsável por este crime, que como já dei conta várias vezes neste blogue se encontra na prisão por outras condenações de violação dos direitos humanos.


Angelelli que era filho de imigrantes italianos, nasceu em Córdoba em 1923. Aos 15 anos entrou no seminário, aos 22 anos continuou os estudos em Roma e foi ordenado sacerdote aos 26. Voltou para Córdoba e começou a visitar as favelas e a dar apoio aos jovens trabalhadores e universitários. Em 1960 foi consagrado bispo auxiliar de Córdoba. Porém a sua "pregação" não caiu bem nos sectores conservadores da Igreja de Córdoba e o Papa Paulo VI desterrou-o em 1968 para a diocese de La Rioja.

 

Quando ali chegou, disse que queria converter-se no "amigo de todos, católicos e não católicos, dos que acreditam e daqueles que não acreditam."


Muitos o queriam: durante o regime militar que imperou de 1966 a 1973, incentivou a organização sindical dos trabalhadores rurais, mineiros e a criação de cooperativas para a produção de têxteis, tijolos, pão e agricultura.


Muitos o odiavam: militares, latifundiários e outros católicos o rejeitaram por "infiltrado comunista". Inclusive em 1972, foi apedrejado por uma multidão liderada por um latifundiário, irmão de Carlos Menem, que em 1989 chegaria à presidência da Argentina e em 1990 indultaria os cabecilhas da última ditadura deste país.


Em Fevereiro de 1976, Angelelli escreveu uma carta a advertir os seus pares da Argentina. "Não deixemos que os generais do exército usurpem a missão de assegurar a fé católica". Um mês depois ocorreu o golpe militar e em Abril viajou para Buenos Aires para denunciar perante o ministro do Interior, Albano Harguindeguy, a repressão que entretanto se instalou. Em Agosto morreu numa estrada de La Rioja...


Já na altura o jornal L'Osservatore Romano falou de um "estranho acidente". O padre que o acompanhava no acidente sobreviveu e foi capaz de reconstruir a história perante a justiça, depois do regresso da democracia em 1983. Foi assim que um juiz determinou que se tinha tratado de um "assassinato premeditado", mas os responsáveis não foram encontrados uma vez que entretanto ocorrera a amnistia do governo de Raúl Alfonsín e os indultos de Menem.


Em 2005, perante a anulação dessas medidas, reabriu-se a investigação. No ano seguinte, pela primeira vez a Igreja da Argentina insinuou um reconhecimento ao seu "mártir", quando o cardeal primaz do país, Jorge Bergoglio, admitiu em La Rioja que o bispo "se empapou no seu próprio sangue."

 

A última ditadura na Argentina matou um total de 19 padres (incluindo um bispo, Carlos Ponce de Leon), religiosos e leigos católicos, e fez desaparecer outros 65.


Siga a marcha que há muita gente para julgar, muito crime por apurar.

 

Fonte: El País

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