Segunda-feira, 18 de Agosto de 2008

Cancun, paraíso para os turistas, inferno para os Mexicanos

Quando o Instituto das Estatísticas mexicano (Inegi) anunciou à imprensa que a taxa de suicídio mais elevada da república mexicana se encontrava em Cancun, instalou-se como que um silênco entre os jornalistas, depois os murmúrios de incompreensão. Como? Suicidam-se mais à beira deste paraíso, mais do que no inferno da cidade Juarez ou de Tijuana, essas cidades fronteiriças presas nas garras dos narcotraficantes e cheias de fábricas?

«Parece que o paraíso não é para todos», respondeu, laconicamente a encarregada do estudo.

Um estudo complementar foi também realizado pelo Observatório da Violência Social em Cancun. A pergunta: porque é que a taxa de suicídio em Cancun (9,8) é quase o triplo da taxa de suicídio nacional (3,4)? Nos seus gabinetes da Universidae das Caraíbas, os investigadores não estão admirados com o resultado. Eles vivem desde sempre em Cancun, a verdadeira Cancun, como explica Celina Izquierdo, socióloga:

"A maioria dos mortos por suicídio trabalham no turismo e têm em média trinta anos. Eles chegam aqui com a esperança de uma vida melhor, mais ainda quando diante deles, há toda essa riqueza, totalemente inacessível e que nunca tinham visto. Eles estão longe da família, embriagam-se."

A primeira Cancun, uma longa avenida de quatro vias ao longo de uma praia de 22 km de comprimento: 26 000 camas de hotéis que já não deixam ver o mar. As piscinas, os campos de golfe, as marcas de luxo e os espaços verdes. Esta zona é maioritariamente artificial, construida numa fina orla de praia entre o mar e e lago. 95% dos mangais originais, que protegiam dos furacões, desapareceram.

A segunda Cancun, é uma cidade de 700 000 habitantes, que cresceu em trinta e cinco anos e que bateu um outro recorde do México – o crescimento demográfico mais alto – cerca de 5%.

Cada família que desembarca em Cancun instala-se onde pode, umas folhas de zinco e um buraco paras WC. A rede de água cristalina, que está por baixo, está hoje inutilizável. A esta poluição, juntam-se as toneladas de fertilizantes dos campos de golfe, todos permeáveis para o sub-solo. Resultado: a água destinada aos hotéis é bombeada de cerca de 50 km da cidade e transportada por aquedutos.

Ao contrário, os dejectos dos turistas são empilhados no meio desses quarteirões. Solução apresentada com «provisória» em razão da proximidade das habitações, passou a definitiva.
Cancun despeja por dia 750 toneladas de dejectos: metade provém dos 700 000 habitantes, a outra metade das 26 000 camas de hotéis…

Os trabalhadores não recebem mais do que o salário mínimo, insuficiente para viver em Cancun onde os preços são, em média, 15% mais altos do que em qualquer outro lugar. As cadeias de hotéis, em toda a ilegalidade, utilisam os contratos temporários de 28 dias, sem protecção social, renovados depois de 3 dias de pausa, como testemunha Alejandro, massagista num hotel:

«No dia em tu assinas um contrato, assinas ao mesmo tempo a carta de demissão dentro de 28 dias. Eles fazem tudo isto e se tu dizes qualquer coisa vais para uma "lista negra". Será impossível então encontrares trabalho em toda a Riviera Maia.»

Os trabalhadores de pés e mãos atadas, os sindicatos comprados e as autoridades fecham os olhos. Assim vai Cancun, e assim vai cada vez pior a vida sob o Sol das Caraíbas.

Não sei o que me deu para partilhar isto convosco em época de férias, talvez a esperança de que alguns de vós dediquem uns minutos a olhar em volta , quando lá forem.

publicado por salvoconduto às 00:02
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11 comentários:
De maria a 18 de Agosto de 2008 às 00:47
Não tenciono lá ir, e já lá estive muito perto...
É uma tristeza o que relatas neste teu post. Mas é assim que é o rosto (e a prática) da exploração desenfreada do capitalismo...

Abreijo
De Suzette a 18 de Agosto de 2008 às 00:52
É sempre bom saber como estes paraísos são geridos.
De Samuel a 18 de Agosto de 2008 às 00:56
Dessa estou eu livre! Gostaria de visitar dois ou três dos chamados paraísos que há por esse mundo... mas ninguém me apanharia em Cancún. Para mim, paraíso é uma coisa um bom bocado diferente dessas espécies de "massamás de luxo" com mar quente.

Abraço
De Hertz a 18 de Agosto de 2008 às 01:37
Só mesmo embalar, muito bem embalada toda esta canalha e despachá-los em grande velocidade no primeiro icberg com destino à Antárctida,para virarem pinguim.
De Ana Camarra a 18 de Agosto de 2008 às 11:22
Gostava de ir a muito sitio que ainda não foi cancun já não constava da lista, agora muito menos.
Mas o contraste entre a miséria de quem lá vive e o luxo de quem lá passa deve ser uma coisa brutal...

beijões
De Antunes Ferreira a 18 de Agosto de 2008 às 14:01
LISBOA - PORTUGAL

Olá!

Cheguei a este blogue através de outros que costumo visitar e neles postar comentários. Cheguei, vi e… gostei. Está bem feito, está comunicativo, está agradável, está bonito – e está bem escrito. Esta é uma deformação profissional de um jornalista e dizem que escritor a caminho dos 67…, mas que continua bem-disposto, alegre, piadista, gozão, e – vivo.

Só uma anotaçãozinha: Durante 16 anos trabalhei no Diário de Notícias, o mais importante de Portugal, onde cheguei a Chefe da Redacção – sem motivo justificativo… pelo menos que eu desse com isso… E acabo de publicar – vejam lá para o que me deu a «provecta» idade… - o me(a)u primeiro livro de ficção «Morte na Picada», contos da guerra colonial em Angola (1966/68) em que bem contra vontade, infelizmente participei como oficial miliciano.

Muito prazer me darás se quiseres visitar o meu blogue e nele deixar comentários. E enviar-me colaboração. Basta um imeile / imilio (criações minhas e preciosas…) e já está. E se o quiseres divulgar a Amiga(o)s, ainda melhor. Tanto o blogue, como o imeile, tá? Muito obrigado

www.travessadoferreira.blogspot.com
ferreihenrique@gmail.com

Estou a implementar e desenvolver o projecto que tenho para o meu www.travessadoferreira.blogspot.com e que é conferir ao meu/vosso/NOSSO blogue a característica de PONTO DE ENCONTRO entre os Países fraternalmente ligados – Portugal e Brasil. No que estou, pela minha parte, a desenvolver todas as diligências que, naturalmente, me forem possíveis.
E, naturalmente também, para poder enviar-te «coisas» que ache interessantes. Se, porém, não as quiseres, diz-me que eu paro logo. Sou muito bem-mandado (a minha mulher que o diga…) e muito obediente (cf. parênteses anterior).
Já solicitei a colaboração da Embaixada de Portugal em Brasília, que tem à frente dela um diplomata fora de série, o meu querido Amigo, Dr. Francisco Seixas da Costa criou um blogue magnífico Embaixada de Portugal no Brasil, www.embaixada-portugal-brasil.blogspot.com, que vos recomendo vivamente visitar. Tem tudo sobre as relações entre as duas Nações. E já fiz o mesmo aqui em Lisboa. Espero receber resposta da Embaixada brasileira.
Este é um desejo que já ultrapassa a simples intenção. Felizmente, neste momento possui muitos comparticipantes – como desejo que seja o teu caso. Mas, com o empenhamento, a ajuda, o entusiasmo e a alegria que tenho encontrado – iremos longe. A internet (apesar dos aspectos negativos que ainda apresenta) tem uma força incomensurável e desenvolvimento tecnológico que se actualiza dia a dia.
Abrações

PS 1 – Quando navegarmos em velocidade de cruzeiro, quero alargar o Travessa aos outros PALOP. Que achas?
PS 2 – Desculpa por este comentário ser tão comprido e chato. Como a espada do D. Afonso Henriques…
PS 3 - Já conheces o me(a)u «Morte na Picada»? Há quem diga que é muito bom. E até que é o melhor que se escreveu em Portugal sobre o tema. Dizem… Obviamente que não sou eu a dizê-lo… E também há quem tenha escrito que sendo contos da guerra colonial em Angola 66/68 (em que contra vontade participei), é SANGUE & SEXO… Malandrecos… Depois de leres, se, por singular acaso, tiveres gostado dele, terás de comprar muitíssimos mais exemplares. São excelentes prendas de aniversários, casamentos, divórcios, baptizados, e datas como Natais, Carnavais, Anos Novos, Páscoas, Pentecostes, vinte e cincos de Abris, cincos de Outubro, dezes de Junhos. Até para funerais. Oferecer o «Morte» na morte fica bem em qualquer velório que se preze. E, além disso, recomenda-o, publicita-o, propagandeia-o, impinge-o aos Amigos, conhecidos, desconhecidos & outros, SARL. Os euros estão tão raros e... caros...
++++++++++++
A editora da obra é a Via Occidentalis (occidentalis@netcabo.pt) cujo site é www.via-occidentalis.blogs.sapo.pt. No meu blogue podem ser consultados mais dados sobre o livro, cujo preço de capa é € 14,70. ATENÇÃO: Pode ser comprado pela Internet.
++++++++++++
NOTA IMPORTANTE: Este texto de apreciação e informação é similar em todos os casos em que o utilizo. Digo isto, para quem ficar preocupado. Só o escrevo nos blogues de que REALMENTE GOSTO. Tenho dito...
De RFF a 18 de Agosto de 2008 às 14:31
É impressionante e repugnante ao mesmo tempo.. Quanto estamos agradavelmente de férias há sempre alguém ao lado a ser explorado (mas em diversas situações já me ocorreu esse pensamento)....É o preço da globalização, dizem...É o preço do egoísmo, digo...
De Cris Caetano a 18 de Agosto de 2008 às 23:29
Eu não fazia idéia... Mas Las Vegas também tem um índice bastante alto. Essa busca frenética por dinheiro como a coisa mais importante da vida, esvazia as pessoas por dentro.
Nada contra o dinheiro(gosto muito), mas existem coisas bem mais importantes do que ele.

Abreijos
De Lúcia a 19 de Agosto de 2008 às 23:17
Não me admira o que reportas. Mesmo nada. O mesmo se passa noutras paragens.
De Anónimo a 13 de Maio de 2015 às 14:15
CARAMBA!!!
QUEM VER ESSE LUGAR MARAVILHOSO POR FOTO COMO ESTOU VENDO NEM IMAGINA ESSES ABSURDOS...E UMA PENA A FINAL O SOL BRILHA PARA TODOS...MUITO INDIGNADA...

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