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Salvo-conduto

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Salvo-conduto

20
Ago08

A canção como tortura

salvoconduto

Sessões de 14 a 27 horas, duas vezes por semana, a escutar "Born in the USA" de Bruce Springsteen ou Britney Spears a todo tempo, é parte das torturas que sofrem os presos em Guantánamo.

Clive Stafford, Justine Sharrock e os impulsionadores da Mothe Jones.com, tiveram acesso a uma lista de canções que os carcereiros da base utilizam para torturar o prisioneros. Algumas, mais conhecidas como "Born in the USA", de Bruce Springsteen, e outras, menos, como Dirt, de Christina Aguilera. No top ten da tortura estão canções de Britney Spears, Magic Numbers, Rage Against the Machine, Metallica, David Gray, o clássico infantil Dinossaurio Barney ou Nancy Sinatra.

O procedimento é meticuloso: metem o prisioneiro num pequeno habitáculo, obrigam-o a adoptar a denominada "posição de stress", na qual não se podem mover os braços nem as pernas, e sobem o ar condicionado até ao nível de congelação. De seguida, põem a canção e puxam o volume ao máximo. As sessões podem durar entre 14 e 27 horas, duas ou três vezes por semana.

O psiquiatra e ex-brigadeiro do exército dos Estados-Unidos Stephen Xenakis, uma das vozes mais relevantes contra este tipo de tortura, adverte a esse respeito: "Os danos psicológicos são incalculáveis. Conduz-se o cérebro ao mesmo nível de ansiedade do síndroma de stress pos-traumático".

Pouco importa que o Tribunal Europeu para os Direitos Humanos condenasse em 1978 este tipo de prácticas, empregadas pelos serviços secretos britânicos no princípio da década de setenta contra prisioneros relacionados com o Exército Republicano Irlandés (IRA). Ou que, em 1997, o Comité contra a Tortura das Nações Unidas o tenha considerado "inaceitável". Até o Supremo Tribunal israelita chegou a reprovar em 1999 o uso deste tipo de interrogatórios.

O certo é que a CIA tem aplicado, sem discrição, o "tratamento musical" desde 1963. Ao que parece, os prisioneiros estão dispostos a dizer qualquer coisa para evitar o sofrimento. O uso da música (melhor dito, do som) como arma foi aprovado com o denominado Kubark Counterintelligence Interrogation, um protocolo que se difundiu rapidamente pela Ásia e América-Latina, como denunciou a Amnistia Internacional.

A última ocasião em que a "disco-inferno", como alguns jornais ingleses chamaram a esta peculiar técnica de interrogatório, se converteu em notícia foi em 28 de Fevereiro de 1993, quando a ATF, uma agência federal dos Estados-Unidos, decidiu submeter os membros de uma seita em Waco (Texas) a vários dias de música com o volume no máximo, com o objectivo de os fazer sair sem resistência do rancho que ocupavam. Tratava-se de um procedimento que já tinha sido posto à prova em 1989 com Manuel Noriega durante a invasão do Panamá, mas a táctica musical nesta ocasião não foi demasiado efectiva: o assalto ao templo dos seguidores de David Koresh culminou com a morte de mais de 90 pessoas, entre pessoal da ATF e membros da seita.

O compositor britânico David Gray acaba de afirmar que lhe parece "intolerável" que utilizem a sua canção "Babylon" para fins tão "degradantes", e incita todos os artistas que aparecem na lista a tomarem medidas. O mesmo decidiram bandas como os Massive Attack, Magic Numbers e o Rage Against the Machine. Tom Morello, guitarrista destes últimos, manifestou um "absoluto desgosto" por facto de terem utilizado "canções da nossa banda para coisas tão indignas como a tortura".

Tudo isto a bem da cultura, claro!

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