Quarta-feira, 15 de Dezembro de 2010

Nego, N-E-G-O

 

 

 

Tenho a impressão que mesmo que seja indicada a hora, a matrícula dos aviões militares, a identificação dos prisioneiros ou até um vídeo a cores, José Sócrates e Luís Amado continuarão a negar.


Aí estão mais telegramas filtrados que indicam que José Sócrates aprovou no mais recatado segredo a utilização de território nacional para o repatriamento de prisioneiros de Guantánamo, contrariando assim todas as suas declarações até hoje proferidas.


"Sócrates aceitou permitir o repatriamento caso a caso de combatentes inimigos desde Guantánamo através da base aérea das Lajes", assim escreveu o embaixador Alfred Hoffman num despacho enviado a Washington em 7 de Setembro de 2007, dez dias antes de uma reunião de George Bush com o primeiro-ministro português.

 

"Foi uma decisão difícil", acrescentou, "devido às críticas constantes da comunicação social portuguesa e de elementos esquerdistas do seu próprio partido à actuação do governo na controvérsia dos voos da CIA".


O embaixador realçava que a luz verde de Sócrates nunca se tornou pública, e deu conta de que o Procurador-Geral se viu obrigado a analisar uma recompilação de notícias da imprensa e acusações de um membro do Parlamento Europeu sobre as operações da CIA através de Portugal".


Quatro dias depois outro telegrama coloca em evidência o ministro dos negócios estrangeiros ao assinalar que Luís Amado reiterou a autorização do repatriamento de prisioneiros através das Lajes, sob a mesma premissa de "caso a caso em determinadas circunstâncias". O telegrama acrescenta que o ministro decidira não o reconhecer em público.


Giro também quando num outro telegrama de Janeiro de 2007 o embaixador dá conta que Jorge Rosa de Oliveira, à data assessor diplomático de Sócrates, descreve Ana Gomes como "uma senhora muito excitada que é pior que um Rottweiler à solta".


É claro que tudo isto são elucubrações da diplomacia norte-americana, nada disto é real, o embaixador bebia muito vinho do Porto, não estava habituado, e por isso delirava.


Mas uma coisa tenho por certa, vai dar muito trabalho ao "jugular" e ao "corporações" nos próximos dias escrever posta sobre posta reafir-mando que isto não passa de teorias da conspiração em que aquele embaixador está envolvido e mancomunado com os jornais que divulgam estas calúnias. Não me admiraria mesmo nada se dissessem até que essa coisa da Wikileaks nunca existiu...

publicado por salvoconduto às 23:18
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É curta a manta

 

 

A Força Aérea dos Estados Unidos bloqueou agora o acesso, desde os seus computadores aos sites do  The New York Times, do The Guardian e a outras 23 páginas web, por causa 250.000 documentos diplomáticos do Departamento de Estado filtrados pela Wikileaks.

 

Cá para mim a manta é curta. É uma manta que destapa quando tapa...

publicado por salvoconduto às 00:53
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Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010

Digno do cabaret da coxa

 

 

Não é por acaso que se costuma dizer que o capital não tem pátria, muito menos vergonha acrescento eu. Nas mãos de Santos Ferreira, presidente do BCP, cruza fronteiras, mesmo aquelas que são alvo de embargo, a maior parte das vezes só porque sim.


Cada cavadela sua minhoca. É a vez agora de Portugal e logo na pessoa presidente do maior banco privado, BCP, que se ofereceu para fornecer aos EUA informação das actividades financeiras iranianas a troco de ali poder estabelecer livremente o seu negócio.


Trocado por miúdos, segundo um telegrama agora revelado, a história começa em Abril de 2009, quando uma delegação do BCP viaja para Teerão, convidada pela embaixada iraniana em Lisboa, para discutir o interesse do sector bancário daquela república islâmica em estabelecer uma relação com aquele banco privado português para explorar as possibilidades de negócios e de intercâmbios comerciais.


Dez meses depois, Santos Ferreira, bom amigo da embaixada dos EUA em Portugal, discute o assunto com a conselheira política e económica norte-americana, e os eventuais benefícios que Washington poderia obter da operação, nomeadamente através do rastreio de fundos e actividades financeiras iranianas.

 

Em concreto, o número um do primeiro banco privado português oferece aos seus interlocutores na embaixada "que o Governo dos Estados-Unidos controle as contas iranianas no Millennium", mediante um sistema que seja satisfatório para ambas partes, uma mão lava a outra, topam?


Razão tenho eu em não querer abrir conta naquele banco e nem sequer sou iraniano...

publicado por salvoconduto às 03:24
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Domingo, 12 de Dezembro de 2010

Tropa Fandanga

 

 

 

Foi figura de proa na Cimeira da Nato de Lisboa. Naqueles dias mais uma vez trocaram abraços, juras de amor eterno. Fizeram-se fotografar ao lado de Hamid Karzai, o corrupto presidente do Afeganistão. Há quem diga que isso são trocos, desde que não se oponha à presença dos aliados e que continue a desempenhar o papel que lhe destinaram.

 

No entanto pela calada Karzai ri-se, no fundo, no fundo, também eles fazem o seu jogo, a prová-lo documentos revelados pela Wikileaks.

 

Espertalhaço o presidente do Afeganistão e militares de alta patente do seu país troçam do exército inglês, do fracasso das tropas britânicas na hora de impor a ordem na província afegã de Helmand para onde os aliados enviaram tropas a granel e se propunham num ápice derrotar os insurgentes.

 

Parece que não foi nem é bem assim e os documentos agora revelados mostram um desprezo sem contemplações pelos seus aliados britânicos.

 

Os telegramas filtrados põem também a nu a corrupção que tem lugar ao mais alto nível do governo afegão e entre outras coisas dão conta do modo como o vice-presidente daquele país foi apanhado pela polícia, no aeroporto de Dubai, com uma mala onde transportava 52 MILHÕES de dólares.

 

Enquanto o governo britânico se mostra agastado, não será caso para menos pois é precisamente naquela província que se situa a “cidade maldita” de Sangin, local onde até hoje os soldados britânicos perderam mais vidas, a embaixada norte-americana também considerava os mortos como trocos e afirmava "nós e Karzai pensamos que os britânicos não estão à altura da tarefa de garantir a segurança em Helmand".

 

Ao que consta, Karzai continua a rir-se de fininho e já procurou alternativa ao aeroporto do Dubai para fazer passar outros trocados que vai obtendo no negócio das papoilas, sob o olhar complacente das tropas aliadas que garantem, pela voz de John Kirby, oficial do Exército, que a erradicação da produção de ópio no Afeganistão só atrapalharia a prossecução dos objectivos militares dos EUA na região.

publicado por salvoconduto às 02:54
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Sábado, 11 de Dezembro de 2010

Resposta ao spam no meu Outlook

 

 

 

Vamos lá a esclarecer de uma vez por todas: estou-me borrifando para os objectivos pessoais do responsável da Wikilealks, enquanto pessoa é-me indiferente, não o conheço, não faz parte do meu círculo de amigos.

 

Já indiferente não fico ao conteúdo dos documentos trazidos a público pela organização que dirige. Mas vamos lá por partes.

 

A primeira questão que se deveria colocar ao comum dos mortais seria saber se o conteúdo é verdadeiro ou falso. Até ao momento ainda não vi por parte dos EUA um desmentido, unzinho que seja, bem pelo contrário, sucedem-se os estafados pedidos de desculpas.

 

A segunda questão poderia ser o que isso nos interessa? Aqui a coisa fia mais fino, porque interessa e muito e passo a explicar:

 

Não é aquele país apresentado ao mundo como o exemplo da liberdade, da democracia e até dos bons costumes? Como reagimos quando compramos no supermercado um produto adulterado. Consumimos? Calamos? 

 

Quer-me parecer que não.

 

Então porque não reclamar, porque não denunciar esse produto fora de prazo e claramente adulterado, farto de causar estragos, que dá pelo nome de diplomacia norte-americana?

 

A terceira questão é saber se a matéria divulgada não passa de cusquice ou de calhandrice, como alguém lhe chamou.

 

Será cusquice ou calhandrice saber-se que o Departamento de Estado dos EUA instruiu funcionários de 38 embaixadas e missões diplomáticas no sentido de obter informações sobre a ONU, incluindo o seu secretário-geral, Ban Ki-moon e que a informação a recolher deveria incluir passwords e outros códigos pessoais usados nas redes de comunicações dos funcionários das Nações Unidas?


Será cusquice ou calhandrice saber-se que que o Presidente de Moçambique recebeu uma comissão estimada entre 26,48 milhões de euros e 37,84 milhões de euros pelo negócio da reversão definitiva para Moçambique da barragem de Cahora Bassa, quando ainda estão frescos na nossa memória os brutais aumentos de artigos de primeira necessi-dade que aquele mesmo presidente queria impor ao seu povo?

 

Eu sei, eu sei que em relação ao segundo haverá quem diga: “só fazem bem em denunciar”, já em relação ao primeiro a tónica geral é: “não é correcto, estão apenas a embaraçar o governo dos EUA”…

Embaraçado fico eu com tanta hipocrisia.

 

“Aqueles que sacrificam uma liberdade imprescindível para conseguir uma segurança temporal não merecem nem liberdade nem segurança”.

Benjamin Franklin

publicado por salvoconduto às 00:51
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Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010

Dá-me a tua password

 

 

Nem a ONU foge aos braços do império. O Departamento de Estado dos EUA instruiu funcionários de 38 embaixadas e missões diplomáticas no sentido de obterem informações sobre a ONU, incluindo o seu secretário-geral, Ban Ki-moon.


A informação a recolher deveria incluir palavras-chave e outros códigos pessoais usados nas redes de comunicações dos funcionários das Nações Unidas.

 

Os diplomatas foram, inclusivamente, encorajados a ignorar por completo qualquer regra de imunidade e a fazer letra morta do respeito pela vida privada. O secretário-geral, os seus assistentes e equipas, as agências da ONU, suas embaixadas e as organizações não-governamentais ficaram assim sob a permanente espionagem dos diplomatas norte-americanos.

 

As ordens visavam informação biográfica e biométrica sobre os colegas dos outros países que são membros permanentes do Conselho de Segurança e sobre dirigentes de uma série de outros Estados.


Entretanto depois da campanha de silenciamento lançada pelos EUA contra a Wikileaks esta ganha apoios, alguns de peso, como é o último, o ainda presidente do Brasil Lula da Silva que afirma que a Wikileaks está a colocar a nu uma diplomacia que parecia inatingível.

 

"Estou apenas alertando - afirmou - O que acho estranho é que o rapaz que estava desembaraçando a diplomacia americana...foi preso e não estou vendo nenhum protesto contra a liberdade de expressão.

 

Eu não sei se os meus embaixadores passam esses telegramas. Mas, olha, a Dilma tem de saber e falar para seu ministro (das Relações Exteriores). Se não tiver o que escrever, não escreva bobagem.

 

Aparece o tal do WikiLeaks, desnuda a diplomacia que parecia inatingível, a mais certa do mundo, e aí começa uma busca para prendê-lo. Eu não sei se colocaram cartazes como no tempo do faroeste de "Procura-se Vivo ou Morto". Aí prenderam o rapaz e eu não vi um voto de protesto.

Oh, Stuckinha (Ricardo Stucker, fotógrafo oficial da Presidência), pode colocar no blog do Planalto o primeiro protesto, então, contra a liberdade de expressão na internet para a gente poder protestar porque o rapaz estava colocando apenas aquilo que ele leu - defendeu Lula. - Então, ao WikiLeaks, minha solidariedade pela divulgação das coisas e meu protesto contra a liberdade de expressão".

 

Em terra tuga o silêncio é a regra de ouro, já lá vai o tempo da "asfixia democrática"...

publicado por salvoconduto às 00:24
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Quinta-feira, 9 de Dezembro de 2010

Mais um que sentou o cu no mocho - IV

 

 

Francisco Chávez Abarca, El Panzón, acaba de ser condenado a trinta anos de prisão depois de ver a sua sentença de morte comutada, ainda bem, já que sou contra a pena de morte. Que apodreça por lá e que cumpra os anos todos, já que não sou daqueles que julgam que dar a outra face é sinónimo de esperteza. Cristo também pensava assim até ser pregado na cruz… 

 

Procurado pela Interpol, foi apanhado no dia 1 de Julho passado quando tentava entrar na Venezuela. Para quê? Ainda perguntou o Presidente Hugo Chávez. Turismo senhor presidente, turismo, está bom de ver. O homem dedicava-se ao negócio dos hotéis.

 

Na década de 90 desencadeou uma vasta série de acções contra hotéis na ilha de Cuba no sentido de desencorajar o turismo para aquele país. Provocou a morte de um cidadão italiano, ferimentos em vários outros e grandes prejuízos materiais. Tinha sido recrutado pelos extremistas de Miami.


Segundo a sua própria confissão, meses antes da sua chegada ao aeroporto venezuelano de Maiquetía tinha recebido instruções da "Cuban American National Foundation" (CANF) para desestabilizar a Venezuela em época de eleições legislativas. Ao que parece aquela fundação estava entusiasmada com o sucesso do golpe militar das Honduras...


Os métodos de Abarca eram simples, apenas precisava de uma calculadora de bolso, um relógio, um detonador, alguns fios e C-4, um poderoso explosivo que se parece com a plasticina, introduzido em Cuba pelos criminosos dentro de aparentemente inofensivos tubos de pasta de dentes e embalagens de desodorizante ou shampoo, já que se faziam passar por turistas. A mesma substância utilizada para explodir dois aviões por Posada Carriles e os seus cúmplices Guillermo Novo Sampol, Gaspar Jimenez Escobedo e Pedro Crispín Remón e que tentariam usar mais tarde para assassinar Fidel Castro durante a Cimeira Ibero-Americana em 2000, no Panamá.


Fico à espera de ver sentar o cu mocho o salvadorenho Raul Ernesto Cruz Leon e os guatemaltecos Maria Elena González Meza, Nader Kalam Musalam Barakat e Jazid Ivan Fernandez Mendoza, companheiros de Abarca, igualmente recrutados para semear o terror na ilha, já que será mais difícil ver Posada Carriles e seus cúmplices que gozam da protecção do governo dos EUA, mas nunca se sabe, pois como diz o crente, Deus é grande...

publicado por salvoconduto às 00:02
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Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010

Conta-me uma história

 

 

Zeinal Bava entregará dentro de dias dividendos da PT, livres de impostos, aos accionistas. Faria de Oliveira já entregou ao governo o plano de cortes da despesa com remunerações dos trabalhadores da CGD.

 

Um e outro, sócios no negócio dos dividendos, ficarão agora livres para as boas causas. Já divulgaram que até ao final do ano se vão dedicar à caridade juntamente com mais 15.000 voluntários.

 

Sei de antemão que se for necessário farão até uma festarola no Casino do Estoril para ajudar os mais necessitados e também não me admiraria nada se convidassem alguns sem-abrigo para jogar nas slot machines.

 

Por falar em convites, Faria de Oliveira convidou os seus trabalhadores à leitura do livro de Natal da Caixa, “Outras Histórias”, logo eles que estão fartos de estórias.

 

Com um bocadinho de jeito adormecemos todos num instante e Zeinal Bava e Faria de Oliveira ganham mais pontos para o acesso ao Reino dos Céus, depois de terem juntado esforços a Isabel Jonet, essa mesmo, a que afirma que em Portugal há uma política do encosto e da preguiça que não pode continuar a existir e por isso defende que quem recebe subsídio de desemprego tem de ser obrigado a trabalhar.

 

Malandros, que não querem trabalhar! Onde é que eu já ouvi isto?


Bora lá praticar uma boa acção e não se esqueçam que caridade sempre incluiu jantares com as elites dominantes...

publicado por salvoconduto às 02:20
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Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010

O jornalismo e o poder

 

 

Apesar do que escrevi aqui, continuei a remoer, como é possível nos dias de hoje uma jornalista como Teresa de Sousa do jornal Público ter escrito que o jornalismo não deve “embaraçar os governos”?

 

Procuro, procuro e é mesmo o que me sai, tirando as honrosas excepções, é a conivência permanente com o poder que eu julgava dever ter desaparecido com o advento da democracia, aqui e em qualquer parte do mundo.

 

Talvez por isso, decidi trazer-vos aqui, via blogue do Miro, a homenagem a Eduardo Leite, o Bacuri, vítima da ditadura brasileira e que receberá, in memoriam, o título de Cidadão Paulistano, hoje  às 19 horas, na Câmara dos Vereadores de São Paulo.


Trata-se de mais um dos casos de absoluta crueldade da repressão brasileira. Na madrugada da véspera de ser retirado do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social, criada para manter o controlo do cidadão e vigiar as manifestações políticas na ditadura pós-64 instaurada pelos militares no Brasil) para ser assassinado, a repressão entregou-lhe – na cela onde estava sozinho – um exemplar da "Folha da Tarde" que noticiava sua “fuga”.

 

A "Folha da Tarde" era o jornal que Otávio Frias, pai de Otávio Frias Filho, actual director de Redacção da "Folha" desde 1984, pôs ao serviço do esquadrão da morte durante os dois anos finais dos 1960 e que assim continuou até o final dos anos de 1970.

 

O assassinato de Eduardo Collen Leite, o “Bacuri”, é um dos mais terríveis dos que se tem notícia no Brasil, já que as torturas lhe foram infligidas duraram 109 dias consecutivos, deixando-o completamente mutilado. Quando o corpo foi entregue aos familiares estava sem orelhas, com olhos vazados e com mutilações e cortes profundos em toda a sua extensão.

 

Foi preso no dia 21 de agosto de 1970, no Rio de Janeiro, pelo delegado Sérgio Fleury e sua equipa, quando chegava a casa. Passou pelo Centro de Informações da Marinha (Cenimar) e pelo Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), onde foi visto pela ex-presa política Cecília Coimbra, já quase sem poder andar.


Do local da prisão, Eduardo foi levado a uma residência particular onde foi torturado. Os seus gritos e os dos seus torturadores chamaram a atenção dos vizinhos, que avisaram a polícia. Ao constatar de que se tratava da equipa do delegado Fleury, pediram apenas para que mudassem o local das torturas.


Após ser torturado na sede do Cenimar, no Rio de Janeiro, Eduardo foi transferido para o 41° Distrito Policial, São Paulo, cujo delegado titular era o próprio Fleury.


Novamente transferido para o Cenimar, Eduardo continuou a ser torturado até meados de Setembro, quando voltou novamente para São Paulo, sendo levado para a sede do DOI-Codi. Em Outubro, foi removido para o DOPS paulista, sendo encarcerado na cela 4 do chamado “ fundão” (celas totalmente isoladas).


Em 25 de Outubro, todos os jornais do País divulgaram a nota oficial do DOPS relatando a morte de Joaquim Câmara Ferreira (comandante da ALN), ocorrida em 23 de Outubro. Nesta nota, foi inserida a informação de que Bacuri havia conseguido fugir, sendo ignorado o seu destino.

Após a ditadura foi encontrado nos arquivos do Dops, a transcrição de uma mensagem recebida do Dops pela 2ª secção do IV Exército, assinada pelo coronel Erar de Campos Vasconcelos, chefe da 2ª Seção do II Exército, dizendo que foi dado a conhecer a repórteres da imprensa falada e escrita o seguinte roteiro para ser "explorado dentro do esquema montado”.

 

O tal roteiro falava da morte súbita de Câmara Ferreira após ferir a dentadas e pontapés vários investigadores. E mais adiante diz: “Eduardo Leite, o Bacuri, cuja prisão vinha sendo mantida em sigilo pelas autoridades, havia sido levado ao local para apontar Joaquim Câmara Ferreira (...) Aproveitando-se da confusão, Bacuri (...) logrou fugir (...) ”.
Estava evidenciado o plano para assassinar Eduardo Leite.


O testemunho de cerca de 50 presos políticos confinados nas celas do DOPS paulista (entre eles, o gaúcho Ubiratan de Souza) neste período prova que Eduardo jamais saíra da sua cela naqueles dias, a não ser quando era carregado para as sessões diárias de tortura. Eduardo era carregado porque não tinha mais condições de manter-se em pé, muito menos de caminhar ou fugir, após dois meses de torturas diárias.


O comandante da tropa de choque do DOPS, tenente Chiari da PM paulista, mostrou a Eduardo e a inúmeros outros presos políticos, no dia 25, os jornais que noticiavam a sua fuga.


Para facilitar a retirada de Eduardo da sua cela, sem que os demais prisioneiros do Dops percebessem, o delegado Luiz Gonzaga dos Santos Barbosa, responsável pelo cárcere do DOPS àquela época, exigiu a substituição total dos presos, e a remoção de Eduardo para a cela n° 1, que ficava defronte à carceragem e longe da observação dos demais presos. Seu nome foi retirado da relação de presos, as dobradiças e fechaduras de sua cela foram lubrificadas de forma a evitar ruídos que chamassem a atenção.


Os prisioneiros políticos, na tentativa de salvar a vida de seu companheiro, montaram um sistema de vigília permanente. Aos 50 minutos do dia 27 de Outubro de 1970, Eduardo foi retirado de sua cela, arrastado pelos braços, pela falta total de condições de pôr-se em pé, com o corpo repleto de hematomas, cortes e queimaduras, sob os protestos desesperados de seus companheiros.


Segundo testemunho de Ubiratan, todos os presos chegaram junto às grades e estendiam braços e mãos para cumprimentar ou simplesmente tocar em Bacuri, ao mesmo tempo que batiam com talheres e copos metálicos no ferro das grades numa demonstração de protesto pela iminente morte de um companheiro. Todos sabiam que Bacuri seria executado.


Eduardo não mais foi visto. Os carcereiros do DOPS, frequentemente questionados sobre o destino de Bacuri, só respondiam que ele tinha sido levado para interrogatórios num andar superior. Os policiais da equipa do delegado Fleury respondiam apenas que não sabiam; apenas o policial conhecido pelo nome de Carlinhos Metralha é que afirmou que Eduardo estava no sítio particular do delegado Fleury. Tal sítio era usado pelo delegado e sua equipa para torturar os presos considerados especiais ou os que seriam certamente assassinados e, por isso, deveriam permanecer escondidos.


Em 8 de Dezembro, 109 dias após sua prisão, e 42 dias após seu sequestro do Dops, os grandes jornais do País publicavam uma nota oficial dando conta da morte de Eduardo “num tiroteio nas imediações da cidade de São Sebastião”, no litoral paulista. Era evidente o conluio entre a repressão e a media, nesta farsa montada para eliminar Eduardo Leite.

 

A história de Eduardo Leite permite-nos entender melhor as cumplicidades entre jornais, jornalistas, poder, repressão. À luz da história de Eduardo Leite, ou de tantas outras que por cá se passaram, aí sim, talvez se perceba o comentário de Teresa de Sousa.

publicado por salvoconduto às 00:16
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Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010

São longos os braços do império

 

 

Parece valer tudo para calar de vez a Wikileaks, mas nunca me passaria pela cabeça que o serviço de pagamentos online "PayPal" desactivasse a conta através da qual a Wikileaks recebe doações.

 

O que é mesmo giro é o argumento: "esses fundos estavam a ser utilizados para actividades ilegais", sem no entanto ser capaz de explicitar quais.


Não conhecesse eu a verdadeira razão e diria que a minha alma está parva. É que é precisamente a PayPal que vive à custa de tanta actividade ilegal.

 

Tem milhões de contas utilizadas para toda espécie de crime. Droga, pirataria, negócios clandestinos. É a forma de pagamento mais utilizada a quem se dedica a actividades marginais. Nunca a PayPal questionou a origem e o destino do dinheiro transaccionado através dos seus serviços.

 

Depois de algumas operadoras de serviços de internet terem cedido às pressões do governo de Washington, já durante a semana a Amazon tinha retirado do seu serviço de alojamento a WikiLeaks e o nome de domínio Wikileaks.org também foi eliminado, surge agora esta pérola da PayPal...


Será que o The New York Times, o The Guardian, o Der Spiegel ou Le Monde que têm estado a divulgar os telegramas filtrados vão ser alvo de iguais medidas? Ou é em vão que se diz que tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta?...

 

Enquanto é tempo vou ler mais alguns documentos, quem sabe até colocar aqui algum que me desperte mais o interesse...

 

publicado por salvoconduto às 00:01
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