Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Salvo-conduto

A erva daninha cresce todos os dias

A erva daninha cresce todos os dias

Salvo-conduto

06
Fev12

Quem partiu a chave? (recebido por email)

salvoconduto

 

 

Do que é que temos medo? Da perda, da morte, da pobreza, da insegurança, do desemprego, da doença... Cada um de nós dará uma resposta diferente em função da sua idiossincrasia e das suas próprias vivências.

 

Pela parte que me toca (todos temos os nossos fantasmas) há algo que me apavora muito mesmo, o equívoco e o logro. Não entenderam? Bom, vou-vos contar um pequeno episódio de infância que talvez ilustre esta minha fobia.

 

A acção passa-se na aldeia onde nasci chamada Carneiro (não se riam), no concelho de Amarante, numa escola primária (daquelas típicas do estado  novo) acabadinha de ser construída. Eu tinha 8 anos e estávamos no início da década de 70.

 

O acesso àquela escola era feito por um portão de ferro forjado, protegido por uma fechadura antiga de chave em forma de L com pega redonda.

Poucos dias antes da inauguração, a chave, que já estava na posse da professora primária da aldeia, foi necessária para abrir o portão a alguém que ia lá concluir uma tarefa ainda pendente.

 

Lembro-me que estava uma manhã de sol, mas muito fria quando me pediram que acompanhasse o filho da professora, um pouco mais novo do que eu, no caminho entre a velha e a nova escola.

 

É claro que fiquei entusiasmado pelo facto de poder sair da sala de aulas, de ir ver a nova escola e ao mesmo tempo pela responsabilidade de acompanhar e proteger o menino mais bem vestido da escola.

 

Depois de ouvirmos as recomendações da professora (que era muito severa), saímos disparados numa correria em direcção à nova escola. Chegados em frente ao portão o filho da professora entregou-me a chave para que fosse eu abrir o portão; afinal de contas eu era o mais velho. A tremer, mais de excitação do que de frio, coloquei a chave na fechadura e tentei rodá-la, uma, duas, três tentativas e nada. A chave não abria o portão. Aos gritos, frustrado e impaciente o filho da professora tira-me a chave da mão e introduz a chave na fechadura. Força uma, duas vezes e... trás! Ficou com metade da chave mão e a outra metade lá dentro. Petrificados, ficámos por instantes a olhar para a metade que ele tinha na mão até que a largou e gritou: - partiste-te a chave, o Martinho partiu a chave, o Martinho partiu a chave –, continuou repetindo a frase com voz estridente e nervosa.

 

Desnecessário será dizer que as horas seguintes foram para mim traumáticas. Nem a minha Mãe acreditou em mim. Levei umas valentes bofetadas e fui obrigado a percorrer sozinho a distância até a freguesia mais próxima – Loivos do Monte – onde existia o único serralheiro capaz de soldar a malfadada chave. Esperei que ele efectuasse o trabalho, paguei com o dinheiro que a minha Mãe me havia dado (e que tanta falta lhe fazia na época) e fiz o caminho de volta.

 

Já foi há uns anos mas, os equívocos e os logros continuam a ocorrer à minha volta. E também os respectivos custos económicos. Só o tempo e os intervenientes é que são diferentes, ou talvez não...

 

Vem a propósito os cortes dos subsídios de férias e de Natal que estão a acontecer na CGD que são um equívoco e um logro. Vejamos:

A Caixa Geral de Depósitos é uma Instituição Bancária que, independentemente da sua longa história, foi transformada em 1993 em sociedade anónima passando a reger-se pelas mesmas leis e normas das demais empresas privadas do sector (leia-se Bancos). Em termos laborais, os seus trabalhadores deixam a sua ligação ao sector público e os novos contratos passam a ser celebrados em regime de contrato individual de trabalho. Resumindo através do Decreto-lei 287/93 de 20 de Agosto é-lhe consagrada a natureza de Banco universal, inserido num mercado plenamente concorrencial.

 

Nessa época eu estava no Banco Nacional Ultramarino onde fui admitido em 1990. Em 2001 com a fusão do BNU na CGD esta acentuou ainda mais o seu objecto social transformando-se num Banco comercial e líder destacado num mercado cada vez mais competitivo. Só para termos uma ideia, de 2001 a 2010 a CGD teve lucros líquidos superiores a 5 mil milhões de euros. Escrevi bem! Isso mesmo eu repito: 5 mil milhões de euros, já limpos de impostos e demais encargos. Obviamente que o estado português único accionista levou deste bolo a parte de leão. A forma como o usou não é seguramente da responsabilidade das várias Administrações e muito menos dos seus trabalhadores. Uns e outros fizeram o que lhe pediram e muitos mais. Trabalharam fortemente, num ambiente competitivo e sem horário. Qual 7 horas qual que? 9, 10 11, 12 horas por dia e por vezes ao fim-de-semana Trabalhos extraordinário remunerado? Não senhor! Nem pensar. Objectivos comerciais a cumprir isso sim! A CGD transformou-se, rejuvenesceu os seus Quadros, modernizou-se, mudou a sua imagem, tornou-se um Banco internacional, uma empresa altamente lucrativa, a galinha dos ovos de ouro, a chave para a resolução de todos os problemas de vários governos.

 

Mas não é que.... Mais uma vez... Trás! Alguém partiu a chave! De repente (leia-se OE 2011) alguém decidiu que a CGD é Estado e pronto. Aí vieram os primeiros cortes. Ainda com adaptações (assim uma espécie de favor), mas que já não são válidas para o OE 2012. Num ano a CGD passou de Banco com objectivos comerciais altíssimos para uma espécie de... repartição pública. Surreal não é? Não não, a palavra certa é (lembram-se) equívoco. Para tudo estar conforme só faltava o logro e alguém que gritasse que quem partiu a chave não foram os governos – este e os anteriores -, não senhor. Neste caso já não é o menino, o filho da professora, mas é gente bem vestida e bem-falante (e eventualmente bem paga) que agora “grita” que quem partiu a chave foram os trabalhadores da CGD, uns privilegiados, que até têm emprego, os malandros que cometeram o crime de produzirem 500 milhões de euros de lucros líquidos médios anuais.

 

Agora como há 40 anos a “Professora” nem quer ouvir falar das óbvias culpas do seu “filhinho”. E também não está a ser nada fácil convencer as “Mães” desta aldeia de que não foram os trabalhadores da CGD que partiram a chave.

 

Esperemos não ter de atravessar o monte por caminhos sinuosos até a aldeia mais próxima para que o serralheiro local conserte a chave e nos cobre o dinheiro que tanto nos custou a ganhar e tanta falta nos faz...

1 comentário

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2013
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2012
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2011
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2010
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2009
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2008
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D