Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Salvo-conduto

A erva daninha cresce todos os dias

A erva daninha cresce todos os dias

Salvo-conduto

13
Set08

Apartheid no reino copta

salvoconduto

Como é que médicos se podem opor à transplantação de órgãos, em que o único motivo é o dador e o receptor serem de religiões diferentes?

A ordem dos médicos egípcios acaba de fazer uma declaração que tem um sabor a fátua. Ela opõe-se à doação de órgãos entre pessoas de religião ou nacionalidade diferentes. Para se justificar, a ordem evoca um hipotético problema de tráfico de órgãos . "Não é normal que um copta faça uma doação a um muçulmano ou a inversa, como também não seria que um egípcio o fizesse para um habitante dos países do golfo ou da França. Tratar-se-ia de tráfico de órgãos ou pelo menos seria suspeito. Nós recusamos categoricamente.”

O pior deste argumento é que é suposto desmentir o carácter confessional da decisão.

A ordem é confessional precisamente nos termos que utiliza para se desculpar da acusação de confessionalismo. Não menciona os “habitantes do Golfo” e os “Franceses” senão para afogar o peixe. Na realidade, visa os coptas egípcios e muçulmanos e a sua linguagem confina-se ao racismo.

Não existe nenhuma prova para justificar a suspeita de tráfico. Somente a ideia que uma doação de órgãos entre muçulmanos e coptas fere a visão do mundo e do género humano que a ordem dos médicos elege como "norma". Segundo essa norma, está absolutamente excluído que um copta possa salvar um muçulmano, e vice versa, através da doação de

órgãos.

Essa norma retira dos seres toda a capacidade ou motivações humanas, como se a amizade, a generosidade e a compaixão não possam estar para além dos adeptos religiosos ou confessionais.

Tudo isto explica-se pelo facto de a obsessão por excelência dos racistas ser precisamente o corpo do outro. O racismo é essencialmente o desejo de o separar, estabelecer fronteiras entre os corpos. Para o fazer, eles definem o outro através das diferenças físicas. Se for preciso, se as diferenças não saltarem aos olhos, como a cor da pele, eles procuram outras, para fazer aparecer o outro como fundamentalmente diferente. Foi o que fizeram os

racistas europeus principalmente na época nazi. Eles chegaram mesmo a invocar a ciência, ou a pseudo-ciência, medindo os crânios, detalhando as formas do nariz, etc., a fim de estabelecer as diferenças físicas "objectivas" do outro.

Ora a ciência e a medicina abrem novas perspectivas de mistura entre raças e religiões. Os métodos de transplantação permitem consequentemente a interpenetração dos corpos. Porquê as insónias dos apóstolos do apartheid que dirigem a ordem dos médicos egípcios?

O que é grave, é que esta criminalização da doação de órgãos entre adeptos de religiões diferentes emana de uma ordem cujos membros fizeram o juramento de Hipócrates e que exercem uma profissão que deveria ser a mais humanista de todas: a medicina.

 

Fonte: Al-hayat

7 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2014
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2013
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2012
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2011
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2010
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2009
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2008
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D