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Salvo-conduto

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27
Set08

Histórias reais - Marjorie Nshemere Ojule

salvoconduto

Trago-vos hoje, em discurso directo, o testemunho de mais uma mulher, Marjorie Nshemere Ojule de 32 anos, refugiada ugandesa em Inglaterra.

No Uganda eu era uma militante de base na oposição política: trabalhava na minha cidade, ajudando as mulheres a conhecerem os seus direitos e ensinando-as a ler e a escrever. Fui detida duas vezes. O horror que então experimentei, não o desejo a ninguém, nem mesmo ao pior inimigo.

Fui torturada, fui violada, queimada com pontas de cigarro, golpeada com lâminas, choques eléctricos, todas as coisas que possam imaginar para se obter informação de alguém. Consegui fugir e vim para Inglaterra. Era assustador, mas passava por estas torturas já há algum tempo e só queria ser capaz de respirar ar puro outra vez.
Deixei o meu marido quando escapei e essa foi a útima vez que o vi. Não tenho uma pista de onde possa estar. Se ele estiver por aí algures, se vir a minha foto, eu gostaria que ele me contactasse. Posso estar a sonhar e ele já estar morto, mas a vida está cheia de surpresas.

A filha que tenho agora é o resultado de uma violação e no princípio eu não queria ficar com ela, eu queria dá-la para adopção. Quando cheguei em 2002, levaram-me para um hospital, estava mal-nutrida, desidratada, e no Home Office (o departamento governamental responsável pela imigração, contra-terrorismo, polícia anti-droga, e assuntos relacionados com a ciência e a pesquisa) disseram-me que tinha que ir para casa quando a criança estivesse para nascer. Ao fim de seis meses quizeram controlar se a minha minha filha era saudável e foi só após isso que eles disseram "Oh a propósito nós temos família para ela. Eu disse que não estava pronta a dar a minha filha a alguém que primeiro quer ver se ela está desenvolvida em padrões normais.

Por essa altura eu estava a aconselhar-me e isso tornava-me uma pessoa mais forte: as minhas feridas tinham sarado. Eu olhava para mim e sentia-e uma pessoa mais realizada. Esta criança era parte de mim. É difícil trazê-la à vida, mas se eu não a tivesse eu iria ficar louca esperando pela decisação do "Home Office".

Quando o meu caso foi ouvido em tribunal, o juiz concordou que eu fui torturada e deu-me autorização para permanecer no país. Mas o Home Office interpôs recurso. Vivi num limbo à espera da decisão. Finalmente deram-me licença permanente para ficar.

Eu já estava cansada de estar sentada em casa por isso comecei a procurar as instituições de beneficiência e foi através das "Mulheres para as Mulheres Refugiadas" que encontrei Natasha walter que dirige a instituição.

Desde então tenho contado a minha história e as histórias de outras mulheres que não falam o inglês. É como terapia, quando há um lugar onde podes explodir toda a raiva e dizer "porque é que o governo do Uganda me fez isto?" e depois sabe bem, como se eu pudesse respirar livremente. Toda a gente me pergunta "Oh meus Deus Marjorie, como conseguiste passar por tudo isso?" E eu digo que é com o trabalho que me mantém ocupada. E já estive na "Casa dos Comuns" muitas vezes. A primeira vez foi aterrador, mas mative-me de pé e falei, olhei em volta e toda a gente estava a acenar com a cabeça e pensei: oh meu Deus, eu tenho poder.

Natasha diz que eu sou maravilhosa e eu digo sou que sou maravilhosa por causa dela. Isto faz-me gritar que se não fosse gente como ela eu não estaria aqui. Estou-lhes tão agradecida.

Estou a guardar dinheiro para a minha filha mais velha, de dez anos, vir para o pé de mim porque a minha mãe, a sua protectora, já se foi. Estou com esperança de a encontrar e isso faz-me continuar.

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