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07
Out08

O Peru continua doente

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Em muitos dos hospitais públicos do Peru, ante a falta de instrumentos médicos, os cirurgiões vêm-se obrigados a operar com berbequins, alicates e martelos.

O ministro da Saúde justifica-se. "Queremos equipamento projectado para as operações, mas isto só diz bem dos médicos peruanos porque as inventam", declarou Hernán Garrido Lecca, que para além de ministro é economista e, curiosamente, argumentista de filmes de desenhos animados.

Depois de lembrar um médico da região andina de Andahuaylas conhecido como 'Doutor Berbequim', felicitou os médicos peruanos por adaptarem estes utensílios à medicina. Essa foi a primeira da muitas vezes que meteu a pata na poça, graças às quais ganhou a alcunha de 'Doctor Doolittle', em referência ao filme de Eddy Murphy, e uma greve médica por tempo indeterminado que há três semanas afecta 80% dos cidadãos que carecem de apoio sanitário.

O Peru padece de uma triste realidade. O país com mais crescimento da América Latina, com uma taxa de 8,8%, é um dos que menos investe em saúde (somente 4% do seu Produto Interno Bruto).

Face à greve, o Governo tentou articular uma campanha de desprestígio. Tudo começou com as madrugadas do ministro da saúde. Aparecia com as câmaras de televisão às cinco da manhã em hospitais do Estado para apanhar 'em flagrante' médicos a dormir durante os seus turnos. O pior foi que o único médico que conseguiu apanhar, com cuja imagem a cidade de Lima tomou o pequeno com as informações da manhã, durante essa noite tinha feito quatro cesarianas e estava a descansar uma horita antes de retomar o trabalho.

Depois desta "façanha", a Federação Médica declarou-lhe guerra. Não tardou em aparecer um áudio na Internet, no qual se reconhece claramente a voz do ministro que referindo-se a um funcionário da saúde diz: "A mim não me importa que a sua mãe ou a sua esposa tenha cancro".

Os médicos depressa colocaram em cartazes: "A Garrido Lecca não lhe importa que a tua mãe ou a tua mulher tenham cancro... Aos médicos peruanos, sim".

Enquanto o Governo e a Federação Médica continuam em reuniões de negociação, os peruanos continuam a resignar-se de cada vez que vão ao hospital.

Para além dos médicos a operar com berbequins, é difícil de imaginar um hospital infantil que carece de lixívia e detergente para desinfectar o laboratório, ou no qual por falta de camas as crianças durmam em cadeiras de rodas.

Ou um hospital de emergências sem tomógrafo e com o raios X avariado. Ou 19 crianças contagiadas de hepatite B porque no único hospital infantil do país, o Instituto Nacional de Saúde da criança, reutilizaram as agulhas dos sacos de soro por falta de orçamento.

Tudo isto e muito mais é o dia-a-dia dos peruanos que não têm seguro de saúde. Também as condições de trabalho fizeram que tenham aderido à greve a maioria dos 20.000 médicos dos 7.000 centros de saúde do país.

Enquanto uma parte da América Latina aposta no futuro, outra, teimosamente, mantém-se arreigada no passado...

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