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Salvo-conduto

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17
Jun08

Homenagem às vítimas do franquismo

salvoconduto

O Congresso dos Deputados de Espanha rendeu, sexta-feira, homenagem às vítimas do franquismo. O seu presidente, José Bono, expressou o seu sentimento aos presos e vítimas do franquismo, a quem recordou que a democracia chegou a Espanha "não como uma tempestade de verão ou por vontade de uma pessoa", mas sim fruto do sacrifício daqueles que perderam a sua liberdade por ela.
Bono recordou a memória daqueles que tornaram possível que a Espanha tenha o regime e as liberdades de que hoje desfruta, um sacrifício que merece ser recordado, não para o ódio ou o rancor, mas sim para que a história se escreva com verdade.

É bom e vale mais tarde do que nunca. Não podemos esquecer que o franquismo se abateu sobre a Espanha de 1939 a 1975 e contou com a ajuda fraterna de Hitler , Mossulini e, não posso deixar passar, pela igreja católica.
Que melhor forma de prestar homenagem a essa vítimas do que recordar Marcos Ana, de seu nome verdadeiro Fernando Macarro, porque Marcos Ana é o nome com que escreve, ainda hoje com 87 anos, Marcos de seu pai e Ana de sua mãe.
Para melhor dar a conhecer Marcos Ana socorro-me das notas de Cecilia Costa, da ABI.

O poeta Marcos Ana está hoje com 87 anos. Nascido em 1921 numa pequena localidade de Salamanca, com o nome de Fernando Macarro, com apenas 15 anos se apresentou como voluntário na frente de Guadarrama, mas, ao ser formado o exército regular, foi mandado de volta para casa, por ser menor de idade.

Aos 17 anos, porém, após recolher o cadáver do pai nos escombros de sua residência destruída por bombas, alistou-se novamente na 8ª Divisão do Exército Republicano. Ao final da guerra, em 1939, foi capturado em Alicante e levado a um campo de concentração. Fugiu, mas voltou a ser preso, com 18 anos e 3 meses de idade. Torturado 43 dias numa prisão em Madrid, foi transportado para uma prisão em Porlier sem poder andar, nem levar alimento à boca. Os companheiros de cela trataram-no como se fosse um recém-nascido.

Condenado à morte, esperou noites e noites pelo fuzilamento, sempre adiado, tendo assistido à matança de vários companheiros. Escreveu um texto sobre a necessidade de fé e esperança e foi torturado novamente. E de novo condenado à morte, num jogo de tortura psicológica, já que o seu fuzilamento continuaria a ser marcado e adiado, marcado e adiado.

Ficaria preso por quase 23 anos, passando por vários presídios e sofrendo novas torturas e castigos. Na prisão de Conde de Toreno, conheceu o poeta Miguel Hernandez, que faleceria no calabouço. Sua mãe morreria de frio na porta da masmorra do filho, após muito pedir para vê-lo. Seus algozes diziam que era impossível a visita, já que o preso estava incomunicável. Aos 33 anos, em total isolamento numa cela, começou a escrever os seus poemas, com o pseudónimo de Marcos Ana. Marcos em homenagem ao pai e Ana, à mãe.

Magicamente, por meio de uma rede de solidariedade, os livros chegaram-lhe às mãos — de Antonio Machado, Lorca, Lope de Vega, Rafael Alberti, Miguel Hernandez — e os seus versos atravessaram as barras de ferro da janela. Por meio de uma acirrada campanha internacional em prol de sua liberdade, acabou por ser libertado pela polícia de Franco em Dezembro de 1961, já com mais de 40 anos. Virgem, a primeira coisa que fez foi ir a um bordel “conhecer mulher”. A primeira noite há tanto tempo ansiada, mesmo sendo com uma prostituta, segundo narrou depois, foi cheia de ternura e êxtase. Um acto de puro amor. Logo iria clandestinamente para França, onde criaria o Centro de Informação e Solidariedade com a Espanha (Cise), cujo Presidente de Honra seria Picasso. E vivo, vivíssimo, pôs-se a trabalhar.
 
Hoje, o homem que esteve preso por mais tempo durante a Guerra Civil Espanhola, homem com H maiúsculo de Humanidade, continua activo e militante, ficando sempre muito emocionado quando divulgam sua vida e seus belos versos. O início de um deles, “Mi corazón es patio”, foi o que originou a sua fama além-grades:

 

“Mi vida
os la puedo contar en dos palabras:
Un patio
y un trocito de cielo donde a veces pasan
una nube perdida y algún pájaro
huyendo de sus alas”.

Deixemos, portanto, que falem pela dor e resistência de Marcos Ana dois de seus poemas:


Autobiografía

”Mi pecado es terrible;
quise llenar de estrellas
el corazón del hombre.
Por eso, aquí, entre rejas,
en veintidós inviernos
perdí mis primaveras.
Preso desde mi infancia
y a muerte mi condena,
mis ojos van secando
su luz contra las piedras.
Mas no hay sombra vengadora
corriendo por mis venas.
España! es sólo el grito
de mi dolor que sueña…”


Voy soñando

”Soñar, siempre soñar,
con banderas y besos;
la libertad y el aire
soplando en mi cabello.
Campo y aire sin fin
— oh, luz —, sin otro cerco
que el amor de unos brazos
enlazando mi cuello.
Soñar, siempre soñar,
con los ojos sin sueño, que soy un hombre vivo…
siendo tan sólo un preso.
Hay árboles y un río
fijos en mi recuerdo;
una infancia salvaje,
un dulce amor ingenuo,
y dos nombres grabados en el chopo más viejo.
El cielo aquella tarde
era como un espejo.
El choperal tendía,
para el amor, senderos.
Todo era luz. La gloria
de mayo iba en mi pecho…
Un vilano de plata
se enredó en sus cabellos;
acudí tembloroso
y con mis dedos trémulos…
Sus ojos me invadieron
de aroma y de sol.
El viento,
inmóvil, nos miraba:
fue aquél mi primer beso.
Soñar, siempre soñar,
que vuelvo a todo aquello,
lo que dejé y ya nunca
lo encontraré al regreso.”

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