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Salvo-conduto

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04
Nov08

Asha: adolescente, violada e lapidada

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Suponho que se deram conta de uma notícia sobre uma mulher lapidada na Somália. Pois passados uns dias a verdade é mais dura, nem era mulher, nem tinha 24 anos, nem era adúltera. Se há um país no mundo em que o mau se converte em pior, esse é desde há décadas a Somália. E a história de Asha Ibrahim Dhuhulow, a suposta mulher de 24 anos lapidada em público na passada segunda-feira na cidade portuária de Kismayo, é só um reflexo. Porque não era mulher, mas uma criança. Asha não tinha 24, tinha só 14 anos.

Não tinha cometido adultério, tinha sido violada por três homens do clã mais poderoso da cidade. Ajudados pelo tribunal islâmico imposto pelas milícias integristas de Al Shabab, a morte à pedrada da menor serviu para esconder o rasto do crime.

A Somália, imersa no caos entre um governo incapaz, senhores da guerra, islamistas radicais, exército etíope, piratas, soldados da força de paz africana, a somar aos Estados Unidos, com esporádicos ataques aéreos, alguns enfrentados, todos armados, acumula vítimas. Asha, é mais uma.

Asha não só morreu vítima. Já nasceu vítima. No campo de refugiados de Hagardeer, no sul do Quénia, em 1995, onde a sua família teve que refugiar-se três anos antes, fugindo de Mogadíscio dos ataques contra o seu clã, os Galgale, uma minoria na Somália. Foi a última a nascer, a décima-terceira de seis irmãos e seis irmãs, segundo explicou Ibrahim Dhuhulow, o pai da criança.

Dhuhulow relatou que Asha, que frequentava a escola no campo de refugiados, padecia de epilepsia, pelo que a família decidiu enviá-la para a avó em Mogadíscio, onde poderia receber melhores cuidados médicos. Kismayo ficava no caminho. Mas não contavam com a sempre eterna guerra. Em Agosto, as milícias integristas de Al Shebab tomaram o controlo da cidade. Asha, "uma criança muito doce, muito humilde", ficou barrada em Kismayo, onde pôde sobreviver os dois últimos meses graças aos amigos que que tinha feito no caminho. O dinheiro para chegar a Mogadíscio tinha-se acabado, segundo tinha dito ao seu pai por telefone. Numa noite de Sábado, três homens acercaram-se dela e obrigaram-na a acompanhá-los à praia, onde a violaram.

Por conselho de amigos, ela foi aos tribunais e denunciou os violadores, que foram presos. E aqui inicia-se, a série de desatinos que acabariam com a criança atada e enterrada até ao colo, pronta para a execução.

Uma hora antes de a executarem, Asha conseguiu falar com o pai. "Disse-me: 'Papá, sou a tua filha, vão-me matar, por favor, diz-lhes que me perdoem'. Perguntei-lhe quem a ia matar e por que alguém ia fazer algo assim. Disse-me que o homem ao seu lado não lhe permitia dizer-me as razões. Pedi-lhe para falar com o homem. Perguntei-lhe: 'Quem é tu?, por que vais matar a minha filha?'. Respondeu-me que não me podia responder a isso, 'mas que saibas que a tua filha vai ser lapidada dentro de uma hora'.

De acordo com a reconstrução que o pai e os conhecidos de Asha em Kimbayo puderam fazer dos acontecimentos, os familiares dos seus agressores convenceram-na com boas palavras para que fosse ao tribunal islâmico, retirasse a sua acusação e perdoasse aos três homens. Dar-lhe-iam dinheiro e jóias. Ela acedeu, pensando que com o dinheiro poderia chegar a Mogadíscio. Entretanto, os mesmos familiares acusaram Asha ante o Tribunal Islâmico por extorsão.

Quando Asha, na sua inocência, retirou a denúncia, foi presa e acusada de adultério, de manter relações sexuais sem estar casada.

"Não lhe perguntaram nada, não trataram de falar com ela, nem sequer um médico a visitou", assegura Hassan Shire Sheik, director do Projecto de Defesa dos Direitos Humanos no Este e no Corno de África (EHAHRDP). "Fazem-se chamar tribunais mas não têm nenhum conhecimento legal". Shire Sheik confirma as palavras do pai de Asha segundo as quais a criança ficou sem defesa alguma também pelo carácter minoritário do seu clã, que não possui armas.

"Ninguém do seu clã estava na cidade, ninguém armado estava a seu favor". Sheik, impulsionador de diversas associações de defesa dos direitos humanos na Somália, motivo por que teve que fugir do seu país e refugiar-se no Canadá e Uganda, enfurece-se ao falar do caso: "Nem quando as Cortes Islâmicas tomaram controlo de Mogadíscio em 2006 vimos execuções assim. Onde está a lei? Quem a defendeu? Como se mata uma criança de 14 anos? Estão loucos".

O mesmo deverão ter pensado as testemunhas da execução. Um milhar de pessoas que se acercaram do estádio de futebol de Kimbayo, a quem se lhes disse que iam lapidar uma mulher de 34 anos, prostituta, bígama, adúltera. Mas puderam ver e ouvir Asha antes de lhe cobrirem a cabeça com um capuz. Asha protestava a sua inocência. Uns quantos tentaram romper as filas e acudir em sua ajuda.

Os milicianos integristas abriram fogo contra a multidão. Mataram uma criança. Outras seis pessoas ficaram feridas. Por isso, posteriormente, os islamistas se desculparam e asseguraram que procurariam os responsáveis dos disparos. Não pelas pedras, transportadas até ao estádio num camião. Ninguém mais se atreveu a proteger a pequena.

Cinquenta homens rodearam Asha, cobriram-lhe a cabeça com um capuz, e iniciaram o lançamento de pedras.

Até três vezes tiveram que interromper a execução para comprovar se a criança ainda vivia. "A minha menina ia à escola, a minha menina ia ver a sua avó, não sei que tipo de lei permite matar uma criança de catorze anos", se desespera Ibrahim Dhuhulow, que sabe que algumas testemunhas dizem que parecia que a criança tinha problemas mentais e dói-lhe pensar que pode ter tido um ataque epiléptico sem ser assistida por ninguém mais que pelos seus verdugos.

O defensor dos direitos humanos somali considera que Asha serviu não só para cobrir os autores da violação, "mas também para atemorizar a população, a aqueles clãs que não têm poder".

Este é o resto da história que os jornais não contaram deste acontecimento, talvez porque sentissem o peso da tragédia...

 

Fonte: El País

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