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Salvo-conduto

A erva daninha cresce todos os dias

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Salvo-conduto

24
Abr09

Onde estava no 25 de Abril?

salvoconduto

Eu estava ali bem perto do Largo do Carmo, mais precisamente na Travessa Fiéis de Deus, ao Bairro alto, quando fui despertado, ainda de madrugada, por voz amiga que me avisava que estava em curso um golpe de Estado.

Apressei-me, atravessei o Largo do Calhariz e o Camões, desci até ao Chiado e Rua Nova do Almada, para ver se algo acontecia no Banco de Portugal, idem na Praça do Município e depois subi a calçada até à António Maria Cardoso, onde à entrada da "dita" se encontrava um magote de agentes da PIDE conversando entre si, provavelmente interrogando-se também eles pelo decurso das operações.

À cautela aligeirei o passo até que estacionei e me instalei com todo o material fotográfico na área do Camões e do Chiado. Não demorei muito a bater as primeiras chapas dignas de registo. Os putos sentados na calçada admirando os dois soldados caçulas deitados em posição que eles próprios supunham ser de combate e a multidão que entretanto se formara interrogando-se afinal o que era aquela revolução. Mais acima outros entreolhavam-se, não entendendo aquele graduado que no Camões instigava um cabo que chefiava um carro de combate a disparar sobre outro posicionado em sentido contrário.

O que faltava ao graduado sobejava aos simples militares de um e outro lado para perceberem a loucura da ordem e lá teve o desgraçado que destroçar dali para fora.

Bem guardadas tenho as horas daquela tarde no largo do Carmo, sentado num jipe com o Capitão Esteves de Almeida, enquanto Salgueiro Maia tentava convencer os sitiados a renderem-se. Só então me dei conta que os meus rolos fotográficos tinham acabado. Bati seca e meca mas nada, nem um único rolo.

Sorte a minha de vislumbrar o Margarido, companheiro da Associação Portuguesa de Fotografia, que me desenrascou alguns rolos de slides. Pude assim continuar a documentar o dia.

Cruzei-me com o Beato, companheiro de tropa, que tinha metido o "chico" e ali estava comandando os seus homens. É agora presidente da Câmara de Grândola, mas parece que esqueceu o significado daquele dia, tais os comportamentos pouco democráticos que tem adoptado naquela autarquia. Mais ao lado outro alferes, o "Alheira", companheiro do liceu e também Francisco Sousa Tavares, que se encarrapitava na guarida do guarda do quartel, pedindo calma através de megafone à multidão que entretanto ali se juntara.

Voltei entretanto à António Maria Cardoso acompanhando um pequeno grupo. Ao chegarmos perto da sede da PIDE começou a metralha disparada do telhado e mansardas do edifício. Vi tombar três a meu lado, por momentos fiquei bloqueado ao ver que a metralha, vá-se lá saber porquê, se dirigia quase exclusivamente a um jornalista carregado como eu de material fotográfico. Vi-o com aquele material todo saltar por cima de um Volkswagen e aterrar em segurança.

Foi aí que saí da minha momentânea paralisia e só parei num terceiro andar, bem em frente à sede da PIDE. Arregalei os olhos, vislumbrei outros igualmente arregalados, a mesa posta, os doces e as garrafas de champanhe. Após os primeiros momentos de surpresa, o alívio por todos sabermos que estávamos em boa companhia, vieram os abraços, as lágrimas, o convite para a mesa e a descrição de tantos dias a ouvirem os gemidos daqueles que em frente estavam a ser torturados.

Mas guardado estava o bocado. Na noite de 26 para 27, após a rendição na PIDE, segui com alguns jornalistas, poucos, na última Berliet que acompanhava os agentes da PIDE para Caxias. Foi só nessa altura que foi libertado o preso político há mais tempo na prisão, 23, José Magro de seu nome. Alguns deles acompanhei-os do Porto. Sempre que era 5 de Outubro ou 31 de Janeiro ouvia Virgínia de Moura ler uma carta da sua mulher pedindo a libertação, insurgindo-se porque o único crime que cometera fora a liberdade do seu pensamento.

Era uma hora da manhã quando abraçando-me exclamou: "o dia, a vida, começam agora".

Bem hajas José Magro! 25 de Abril sempre!

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